Jornalista lança livro sobre Fidel Castro

Fidel Castro - Biografia a Duas Vozes, livro do espanhol Ignacio Ramonet, diretor do jornal Le Monde Diplomatique, será lançado hoje, em Madri. A obra apresenta a série de conversas que os dois tiveram entre janeiro de 2003 e dezembro de 2005.O presidente cubano Fidel Castro é um homem tímido e discreto, que, além disso, sabe escutar e possui uma bagagem intelectual muito interessante, revelou o jornalista, após entrevistar o governante por 100 horas.Castro, de 79 anos, fala de sua infância e adolescência - episódios que estão na terceira parte o livro -, do surgimento de seu espírito revolucionário, de suas relações com Che Guevara, da crise dos mísseis e das tentativas de assassinato contra ele.O líder cubano também relata sua impressão sobre a visita do Papa João Paulo II a Cuba, em 1998, a repressão contra os dissidentes, as razões para aplicar a pena de morte e a Guerra do Iraque.Muito do que está na obra já é de conhecimento público, mas Ramonet declarou à EFE que o livro traz novidades interessantes. A principal delas é sobre o esforço de Fidel para colocar por terra a tentativa de golpe de Estado contra Hugo Chávez, na Venezuela, em abril de 2002.Em entrevista, por telefone, antes do lançamento do livro, o jornalista se refere ao assunto como "a grande inovação que não era conhecida até agora" e tenta deixar claro "como Fidel se empenha, como ele mesmo diz, em salvar a democracia venezuelana".Castro relata que, antes do golpe, aconselhou Chávez a não se matar, como Salvador Allende, no Chile, em 1973. Além disso, ele afirma que, apesar de terem tentado fuzilá-lo, o pelotão de soldados encarregados de atirar se negaram a realizar a execução e ameaçaram iniciar uma revolta.Ramonet não quis fazer perguntas pessoais ao líder político, mas reconhece que após tanto convívio "algumas coisas acabam saindo no final"."Ao questioná-lo sobre a idéia de convidar (o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy) Carter, me falou que havia lido uma entrevista muito interessante do norte-americano na Playboy. Ele me disse que há entrevistas apaixonantes nessa revista", declara o jornalista.Ramonet vê Fidel como "um homem que escuta muito e que sabe escutar", como quando quer saber nossa opinião sobre globalização, e "um homem muito tímido e discreto, que, se não fosse o que é, se enfurnaria em um escritório para ficar lendo".Das muitas horas que esteve na companhia do líder cubano, o jornalista destaca a grande capacidade dele de delegar as questões do Governo e o rigor na hora de comer.Além disso, Fidel sempre anda com uma pistola no cinto e "quando está de carro há uma metralhadora no chão". Ramonet relaciona esta preocupação com o fato de terem sido realizados "muitos atentados contra ele".O jornalista afirma que o livro pode ser muito criticado, mas não pelo fato de falta de perguntas críticas sobre questões como a prisão de opositores, a repressão aos homossexuais ou a falta de uma democracia formal na ilha."As perguntas polêmicas foram feitas e acho que ele tinha vontade de falar sobre isso. Fidel nunca pediu para saber anteriormente quais perguntas eu iria fazer. Também é interessante observar o requinte de detalhes que ele usa para explicar as questões. As explicações podem ser aceitas ou não, mas não pode ser dito que fugi do problema", declara Ramonet.Castro disse, certa vez, que não tinha tempo para escrever suas memórias, mas Ramonet acredita que o líder cubano, "como muitas pessoas que chegam a uma certa idade, não quer desaparecer sem dizer algumas coisas. Notei que ele tinha o desejo de oferecer sua versão sobre todo um itinerário de vida e ideológico".Sobre o futuro de Cuba, o escritor constata que Castro continuará como presidente enquanto puder e quiser, e que o sucessor não será seu irmão Raúl, mas "o sucessor de uma geração, a geração de Felipe Pérez Roque, Carlos Lage e Ricardo Alarcon", afirma.Castro já deu seu sinal verde para o lançamento do livro, diz Ramonet. "Ele leu e se interessou, a ponto de até mesmo uma edição cubana estar prevista. O livro será assumido por ele", concluiu.

Agencia Estado,

28 de abril de 2006 | 16h31

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