Jornalista lança livro de ficção científica

O jornalista Carlos Orsi lança nesta quinta-feira o volume de contos de ficção científica Tempos de Fúria na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Composto de seis contos, o livro explora desde futuros impossíveis - como um onde as teorias do psicanalista Wilhelm Reich se revelam na base das leis da física - aos simplesmente absurdos (uma era onde, em vez de advogados, as pessoas contratam duelistas) aos quase prováveis (como uma cidade de São Paulo transformada num enorme acampamento de sem-teto).A ficção de Carlos Orsi, jornalista do Portal Estadão, onde escreve a coluna semanal Mídia Digital, já foi publicada em revistas brasileiras e antologias, no fanzine americano Crypt of Cthulhu e na revista online argentina Axxón. Tempos de Fúria é um lançamento da Editora Novo Século.Serviço - Tempos de Fúria. Editora Novo Século. 157 páginas. R$ 19,90. Lançamento hoje, 19h, na Livraria Cultura. Av. Paulista, 2073 - Conjunto Nacional. Tel.: (11) 3285-4033. Leia trecho do primeiro contoEstes 15 minutos Fim de tarde num boteco de chão de terra batida, a meio caminho do alto do morro. As mesinhas de armar (e cadeiras, idem) foram, um dia, vermelhas por causa da tinta, mas agora deviam a cor à ferrugem que, em todos os tampos e encostos, se esforçava para devorar duplas de pingüins congelados, indefesos. O dono do bar usava camisa florida de mangas curtas, mesmo quando fazia frio, e óculos escuros, mesmo à noite. Sabia ficar de boca fechada, o que era o principal patrimônio do estabelecimento (?Bar Quinho Amarelo?, dizia a placa pintada de compensado) aos olhos da clientela. - E se eu disser pra você que tudo, o mundo inteiro, foi criado há menos de 15 minutos? - disse o homem magro, usando as costas da mão para tirar o bigode de espuma da cara. - Eu diria, ou melhor, repetiria que estamos, aqui, discutindo essa merda de assunto, já faz mais de meia hora - respondeu o gordo. Um gesto largo do braço atarracado por sobre a mesa, charuto aceso entre os dedos médio e indicador, acompanha as palavras, a fumaça de tabaco a descrever um semicírculo por sobre uma dúzia de garrafas vazias de cerveja. - Ou a gente tomou todas em menos de 15 minutos? - Não. O mundo é que foi criado assim. Tu, eu, o cara do bar, a popozuda ali, a gente só começou a existir faz... - o magro armou uma careta, como se tentasse resolver uma divisão complicada de cabeça, antes de continuar - uns sete minutos e meio, mas já viemos com todas essas memórias. A gente se lembra de ter sido criança... Bom, eu pelo menos, lembro... Mas isso nunca aconteceu, neste mundo. - Tá, espertinho - o gordo não saberia dizer por que perdia tempo ali. Ou melhor, saberia, mas apenas num sentido instintivo, abaixo (ou acima) do racional: o sol do fim de tarde estava gostoso, a popozuda encostada no balcão era das boas, o shortinho amarelo que ela vestia era mais agarrado que a própria pele, a cerveja saía gelada, o magro estava pagando a conta. - Então, da onde as lembranças vêm? Dá pra dizer? - Tudo isso vem do mundo que existia antes. E aí é que está o negócio! O magro. O magro é um sujeito engraçado, pensou o gordo. Traficantezinho de merda. Sumiu por uns tempos, e agora volta com essas idéias cretinas. Disse que tinha passado uns tempos na Colômbia, com as Farc, e depois no Merdistão, Porriquistão, Cuziquistão, vá lá saber, um daqueles lugares onde fazem ópio, heroína. Plantam papoula. Na opinião do gordo, o cara tinha viajado até o Acre de carona, em boléia de caminhão, e voltado. O resto era papo. Mas o pessoal do Comando queria ouvir o que o magro tinha a dizer, então tinham mandado o gordo escutar. O gordo tinha escutado. A princípio, parecia mais uma entrevista de emprego - um traficante meia-boca querendo passar a jogar com os profissionais, entrar nos assaltos a carro-forte, avião pagador, arrastão em condomínio de luxo. E se o tipo tinha experiência com as Farc ou com a turma de turbante do Putaquiparistão... Mas aí tinha começado o papo maluco. A conversa dos tais ?quinze minutos?. - Um mundo antes? Quer dizer que teve um outro mundo, primeiro? - perguntou o gordo, enquanto erguia o braço com o charuto entre os dedos, para pedir mais uma cerveja. Quando ela chegou, ele disse ao dono do bar: - Traz também um amendoim. O amendoim, frito na casca, chegou em seguida. Durante alguns segundos, enquanto os dois trabalhavam para tirar as bolinhas avermelhadas de dentro dos casulos, o único som na mesa foi algo parecido ao de gravetos quebrados e palha amassada. Um pagode tinha começado a tocar na jukebox de CD do fundo do barracão, mas os dois homens ignoravam a música, que de certa forma já fazia parte do silêncio de fundo. - Tu já viu um filme de cinema? - perguntou o magro. - Não um filme no cinema, mas um filme de cinema: a tira de fotografias, uma quase igual à outra... - Não, nunca vi. Mas sei como é. E daí? - Bom, é um monte de fotos, todas quase exatamente iguais, que na tela dão a impressão de uma imagem só, que se mexe. - E daí? - Daí que o mundo também é assim. O Universo todo é feito de ?fotos? de quinze minutos cada. Quando os quinze minutos terminam, a foto some, desaparece, escafede. Aí tem um intervalo e a próxima foto entra. Essa próxima foto é outro mundo, só que muito parecido com o anterior. O ?tu? de quinze minutos atrás morreu, foi desintegrado, mas este ?tu? que está aqui é tão parecido com aquele outro que até pensa que é ele. Mas existem diferenças. - Ah, é? - o gordo se sentia quase arrependido por ter pedido amendoim, e não bolinho de bacalhau. Para ouvir tanta merda, o serviço tinha de ser de primeira. - Sim! Tu nunca teve certeza de que tuas chaves estavam no bolso e, quando foi ver, estavam na gaveta? Ou o contrário? Coisas assim. São os ?soluços? de continuidade. Da continuidade entre os Universos. A cada troca de imagem, um pouco de informação se perde. Muda. Dá uma esculhambada. - Certo, cara. E como você sabe disso? Não o papa, não o bispo. Você? - Olha, não sou o único. Uns caras no Nepal sabem. - Nepal? Que é isso? É de comer? - Não fica muito longe do Afeganistão. - Tá. - O que quer que seja. - E uns caras de lá têm essa erva secreta... É isso, pensou o gordo. Droga. Traficante é que nem cafetão, cedo ou tarde se envolve com a mercadoria. Caralho. Povinho de bosta. Mas, ?secreta?? Pode ter grana aí. Se a coisa chapou o palhaço desse jeito... - Erva secreta, é? - disse o gordo, achando que estava na hora de demonstrar algum interesse. Não muito. Algum. - E dá barato legal? Dá pra pôr no mercado? - Não é isso. O negócio não é vender o bagulho dos caras. - Ah...! Não? - Não - o magro se debruçou sobre a mesa, fazendo sinal pro gordo chegar mais perto. - O negócio é que, com essa erva, dá pra sair do quadro. Sair e voltar no próximo. Saca? Imagens de Mickey Mouse pulando para fora de um fotograma de desenho animado, flutuando por alguns instantes no vácuo e caindo de volta no filme dois ou três quadros adiante, passaram diante dos olhos do gordo, de repente. Esse amendoim do cacete deve tá bichado, considerou, com uma careta. - Sei - disse ele. - E daí? - Daí que esse é o melhor esquema de assalto e fuga de todos os tempos! - O quê? Dopar os guardas? - Nada disso. Quer uma demonstração? O gordo deu de ombros. - Tá. Repara na mina ali. O magro indicou a popozuda, que tinha começado a rebolar ao som da jukebox. A despeito de si mesmo, o gordo sorriu. - Tô sacando. - Bom. - Sem mais palavras, o magro pegou uma pastilha verde, hortelã, de dentro do bolso e pôs na boca. Em seguida, abriu a carteira, tirou uma folha seca do meio das notas e deu uma mordida leve, na ponta. Ver a popozuda rebolando, só de miniblusa e calcinha preta enfiada no rego, era um espetáculo. O gordo sentiu que poderia ficar ali, olhando aquilo, por horas a fio, só com um pequeno intervalo para a punheta, inevitável ao cabo dos primeiros três minutos, claro. Ainda mais com a cerveja correndo de graça. - Olá - disse o magro, quebrando o encanto. Com muito custo, o gordo tirou os olhos do rígido par de nádegas que fremia heroicamente ao som do pagode e se voltou para o companheiro de mesa. O gordo se lembrava de que o magro estava ali para lhe propor alguma coisa. Só não tinha muita certeza do quê. Era como se tivessem combinado o assunto séculos atrás. Numa outra vida. - Já viu isso? - perguntou o magro, jogando um pano amarelo por cima da mesa. O gordo pegou: era um short de mulher, amarelo, muito curto. De repente, olhou de volta para a popozuda que rebolava, e então a coisa o atingiu como um carregamento de tijolos. Se conhecesse a expressão, o gordo teria se referido à sensação como um déjà-vu violento, arrasador. A náusea o fez vomitar ali mesmo, no chão de terra batida. Ninguém ligou: clientes com enjôo violento já não eram novidade desde o dia da inauguração. Um pouco mais tarde, depois de o gordo lavar e limpar a boca com um bochecho de meio copo de cerveja e dois guardanapos de papel, o magro disse: - Lembrou, né? Dos quinze minutos anteriores. De como estavam as coisas no outro quadro. - É... de enjoar... - Verdade. Essas quebras de continuidade embrulham o estômago. - Co... Como...? - Dá pra dizer que entrei no novo quadro antes da ?projeção? começar, e fiz umas mudanças. Se a mina fosse um carro blindado, eu poderia ter aparecido do lado de dentro, carregado a grana e dado no pé. Fácil. - E pra que você precisa do Comando, então? - perguntou o gordo, entre desconfiado e impressionado. - Por causa do enjôo. - ? - Não do que tu bodou aí, não. Do enjôo em geral. Da realidade. - Olha... - disse o gordo. - Você tem um jeito qualquer aí de entrar e sair de carros blindados. Bancos. Depósitos de armas. Drogas - o gordo estava ficando desconfiado. Que merda era essa, afinal? - Você não precisa de ajuda. Cacete, você nem devia ter pedido ajuda. Qualé? Enjôo? O magro soltou um suspiro meio teatral, como um professor diante de uma classe especialmente obtusa. Com a demonstração do shortinho ele havia ganhado uma vantagem razoável na negociação, e podia se dar ao luxo de ser - e parecer - condescendente. Por algum tempo, ao menos. - Por que tu enjoou? - o magro perguntou, socraticamente. - Quipariu! Cumé que vou saber? - Tu bodou porque foi forçado... como diziam os nepaleses? ... a ?encarar a inconsistência?. A ver que as coisas não são o que parecem. Ver com os próprios olhos. Pensar com a própria cabeça. Tá dando pra acompanhar? - Acho... Acho que sim... - O mundo, cara, é cheio de remendos. Quando ainda existia vitrola, o que a gente chamava de ?pulos da agulha?. Emendas malfeitas entre os pedaços de 15 minutos. Costuras ruins. Merda, tá entendendo? Como diziam os romanos, Xíti rápens. O gordo fez que sim com a cabeça, ainda que sem muita convicção. De repente, a cerveja parecia meio choca. A náusea, ao que tudo indicava, ainda não tinha passado. Talvez nunca passasse. - Normalmente, a cabeça da gente preenche os buracos. ?Ah! Devo ter esquecido que a chave estava aqui!? Ou, putz! Como fui sair sem a carteira?? Coisas assim. A gente fica inventando desculpas. Agora, quando a cabeça... o cérebro, a porra cinzenta aí dentro da casca grossa, é obrigada a encarar a explicação de que não existe explicação, ou, que a realidade deve estar falhando, bom, o miolo da gente é elétrico. Nessas horas, ele dá um choque. Um choque não só em tu, ou em mim. Um choque geral. Se o bar estivesse lotado e eu levantasse esse shortinho aqui pra todo mundo ver, porra, podia até ter um terremoto! - Sei. - Pois é. Então, é pra isso que eu preciso do Comando: imagine meia dúzia de seguranças armados dentro de um carro-forte, e eles de repente notam que não tem nada lá pra guardar! Eles vão achar o quê? Que esqueceram a grana, como se fosse o crachá da firma em dia de plantão? Que o passeio é só um treino? Vão pensar que nem a piranhosa ali, que agora tá achando que saiu de casa só de calcinha mesmo, pra vir rebolar aqui no alto do morro? O cacete! Um choque cerebral como o desses seguranças de que eu tô falando dá pra abrir uma cratera na Linha Vermelha... Ou, pior: pra ajeitar as coisas, o dinheiro pode, simplesmente, puf! Sumir do mundo. Evaporar. Já aconteceu uma vez. Porra, ainda lembro de quando o K2 era a montanha mais alta do mundo, até... - K2? Do que cê tá falando? - Uma montanha no Nepal. Perto do Everest. Ah, esquece. Mas deu pra captar o principal aí, a linha geral, no que eu disse? - Cê quer o Comando pra fazer jogo de cena. É isso? - Isso! A vítima precisa de uma explicação lógica. Não precisa ser muito lógica, não. Só uma casquinha. Um buraco raso pra realidade se esconder. Que tal? O roubo foi um sucesso. Quando os guardas se deram conta, o blindado estava cheio de fumaça e gás lacrimogêneo, um deles tinha levado um tiro na perna, a porta de trás do veículo estava destrancada e todos ouviram, distintamente, o som de uma explosão vindo do lado de fora. Ninguém se importou com o fato de que o carro ainda estava em movimento, ou de que, até um segundo atrás, nada disso estava acontecendo, ou de que - bem, na verdade, este pensamento causou um princípio de náusea nos quatro agentes de segurança - ninguém se lembrava do combate que, certamente, havia precedido o assalto. Mas eles estavam em choque. Tinham sido pegos de surpresa. E num ataque com gás! Como o gás tinha entrado no carro, se os vidros à prova de bala estavam intactos? Pela porta, claro. A perícia iria comprovar que a porta havia sido aberta por dentro, mas isso só dali a duas semanas. No alto do morro, o primeiro escalão do Comando vomitou profusamente quando o dinheiro surgiu diante de seus olhos. Um deles teve um ataque epiléptico. Eles tinham sido avisados, mas mesmo assim quiseram estar presentes. - Depois de um tempo, a cabeça se ajeita. Aí, passa - disse o magro, que ficou com 50% do lucro.

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