Jornalista brasileira lança biografia de Fidel

Em seu De Fidel a Martí, Luiz Alberto Moniz Bandeira, numa análise sobre a Revolução Cubana a partir dos arquivos do Itamaraty, usa como epígrafe um verso do Paraíso Perdido, de John Milton, que diz: "Melhor reinar no Inferno que servir no Paraíso", referindo-se ao anjo caído. A jornalista Cláudia Furiati, que lança hoje Fidel Castro - Uma Biografia Consentida (Revan, 2 tomos, 574 págs. + 472 págs., R$ 54 + R$ 44), não acha que a frase se aplique bem ao seu biografado.Sua biografia de Fidel Castro será lançada no Rio - a partir das 18h30, na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, o que parece uma piada, mas é só uma coincidência - e deve também ser publicada na Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Rússia, Finlândia, Israel, Egito, Noruega e China. Não por acaso, o evento de hoje é chamado de lançamento mundial.Para a jornalista e historiadora, se Cuba viveu um inferno, isso ocorreu logo depois da queda do socialismo soviético, fato que asfixiou a economia da ilha de 1992 a 1994, quando há uma verdadeira onda de balseiros invadindo Miami. "Já em 1995, há uma visível retomada econômica na ilha", argumenta Cláudia, para quem os pilares básicos do socialismo cubano foram mantidos, apesar da incorporação de técnicas administrativas capitalistas. "Além disso, Fidel não é um rei, e Cuba não é uma dinastia; a Revolução Cubana tem uma organização política que não pode ser comparada à das outras democracias." Por último, mas não menos importante, ela defende que Fidel não acredita que haja um Paraíso no campo oposto ao de Cuba. "Ele é um crítico desse ´Paraíso´." Apesar de simpática à figura de Castro e de "admirar sua importância na história contemporânea", Cláudia afirma que não é "castrista". E que sua obra buscou um distanciamento crítico em relação ao biografado. "O livro não tem nada de ideológico ou doutrinário; procurei dosar essa admiração e respeito por meio de um método: não contei uma história nem do ponto de vista dele nem do meu." Assim, a narrativa do livro é descentralizada, para usar a sua definição. O projeto de Cláudia começou quando ela concluía seu livro ZR - O Rifle que Matou Kennedy, que trata do assassinato do presidente norte-americano a partir dos arquivos do serviço secreto de Cuba. A pesquisa, necessariamente, passou por Fidel Castro, de quem ela foi colecionando informações, até elaborar um projeto que divide a vida de Fidel em sete - ou que, de outro modo, a multiplica. O primeiro tomo de sua biografia chama-se Do Menino ao Guerrilheiro e o segundo, Do Subversivo ao Estadista. Segundo Cláudia, a primeira parte da obra traz várias informações inéditas, sobre a infância, a juventude e a primeira militância de Castro. Na segunda parte, está o governante Fidel Castro, e todas os problemas por que Cuba passou desde que o grupo liderado por ele chegou ao poder em 1959. Entre os fatos que ela destaca, estão o planejamento de Castro para a "exportação" da Revolução Cubana. Para Castro, a revolução deveria primeiro chegar à África, ganhar força e depois voltar para a América Latina. Não por outra razão, o argentino Ernesto Che Guevara parte para o Congo após a Revolução Cubana. "Pela primeira vez, desenha-se esse projeto. Detalho a presença cubana na África, e não apenas em Moçambique e Angola, e também a relação de Cuba com movimentos guerrilheiros na América Latina." O último capítulo do livro recebe o sugestivo título de Alguém Insubstituível? Trata-se de um breve ensaio sobre as possibilidades envolvendo o futuro de Cuba. Cláudia diz que procurou não dar uma resposta definitiva à pergunta. Acha, no entanto, que Castro, num certo sentido, é de fato insubstituível, porque foi o líder da construção de uma nação. "Há uma nova geração que vai tomar para si a responsabilidade de conduzir o país; se continuará o mesmo caminho ou não, não é possível dizer", completa ela.

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