Jornalismo tribal

Se eu revelasse aqui os meus candidatos preferidos na última eleição, o leitor mudaria de opinião sobre as minhas opiniões? O voto é secreto e a curiosidade, legítima.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

A suspensão de um famoso âncora da TV a cabo americana provocou uma discussão acalorada na última semana: jornalista deve sair do armário e soltar a franga de suas cores políticas? Há uma nova geração de consumidores de notícias que não espera separação entre reportagem e opinião.

O pecado: o colérico Keith Olbermann, da MSNBC, fez contribuições financeiras para as campanhas de candidatos do Partido Democrata, logo depois de entrevistar os mesmos candidatos no seu programa, e não notificou a direção da empresa. O castigo: suspensão indefinida, sem remuneração.

Depois de apenas duas noites e uma campanha de protesto pela mídia social, Olbermann estava de volta vociferando em close up. Atenção, dicionaristas, para a evolução do conceito de "indefinido".

A punição decorativa de um jornalista cujo programa diário, Countdown (Contagem Regressiva), é uma versão do telejornal em esteroides, consumiu horas de conversa no ar em torno da pergunta: jornalista é gente?

No Countdown, Olbermann faz o papel do liberal indignado e seu material, mais do que os fatos, são os malfeitores da direita. Ele exibe animações histriônicas de políticos conservadores, uma seleção da "pior pessoa no mundo" e outros besteirois. Seu estilo é bombástico, às vezes beira a histeria. Ele é também o mais assistido âncora da MSNBC, uma espécie de anti-Fox do cabo americano. A Fox é a casa de Rupert Murdoch, que abriga o rebanho da poderosa direita caricatural, responsável por parte do sucesso dos republicanos mais conservadores na eleição de 2 de novembro: Rush Limbaugh, Bill O"Reilly, Sarah Palin, Newt Gingrich e elenco.

O problema é que a parente da MSNBC é a velha NBC e seu departamento de jornalismo tentou aplicar regras de ética tradicional aos funcionários de sua prima opinativa.

Professores de escolas de comunicação argumentaram que a mídia digital, por ter permitido que qualquer pessoa com acesso à tecnologia transmita notícia e opinião, já forçou a redefinição do conceito de imparcialidade. Quem passou por uma escola de jornalismo sabe que a objetividade é uma bússola ética e não uma tentativa de virar eunuco. Mas um elemento fundamental da objetividade é a coleta de fatos e a velocidade da mídia digital atropela, torna difícil esta etapa.

Um exemplo gritante aconteceu antes de Barack Obama visitar a Índia. A mídia conservadora americana repetiu inúmeras vezes a informação absurda, divulgada por um blogueiro indiano, de que a viagem de Obama à Índia estava custando ao contribuinte americano US$ 200 milhões por dia. Nem a guerra no Afeganistão custa tanto.

No jornalismo pré-digital, divulgar esse rumor num telejornal poderia dar demissão. Leonard Downie, o ex-editor que herdou a direção do Washington Post do lendário Ben Bradlee, decidiu comportar-se como um monge quando assumiu o cargo. Simplesmente parou de votar. Há quem critique sua postura como hipocrisia. Por que não abrir o jogo, para começo de conversa? Embora a capacidade de analisar e formar opinião sejam requisitos do trabalho de um jornalista inteligente, a ideia de que observar fatos com a carteirinha do clube ideológico confere honestidade à cobertura é uma proposta perigosa.

O gênio de Rupert Murdoch foi identificar o novo ambiente e montar uma operação de mídia que, na definição precisa do comediante Jon Stewart, "tirou a legitimidade da autoridade editorial, enquanto exerce tremenda autoridade editorial".

Não é à toa que Stewart é o "jornalista" com maior credibilidade nos Estados Unidos no momento. Quando os jornalistas se tornam histriônicos, os comediantes começam a ser levados a sério. Afinal, eles têm uma equipe de redatores de dar inveja a qualquer redação de jornalismo e sua mensagem é mais refinada.

A decisão de suspender Keith Olbermann deixou a MSNBC parecendo um queijo suíço. Ao montar uma programação de cabo baseada em opinião à esquerda do espectro político americano, o canal seguiu a tendência em vigor: dizer ao público o que ele quer ouvir. Todos somos intransigentes com os que discordam de nós e lenientes com os que reforçam nossas opiniões. Mas, ao embarcar neste comércio lucrativo, as empresas de mídia não podem se esconder sob a argumentação furada de que as regras de imparcialidade continuam em vigor.

A solução não é fazer jornalistas confessarem se são de direita, centro ou esquerda. Se a tecnologia redefiniu o que o público identifica como jornalismo, o desafio é redefinir os atores da profissão. E o uso da palavra ator é proposital. Um panfletário como Olbermann não deveria ancorar a cobertura na noite da eleição, como fez, antes de ser suspenso.

Sim, uma das funções do jornalismo é puxar a cortina que esconde a aparência real do Mágico de Oz. Mas o que acontece hoje é uma "afeganização" do jornalismo. A tecnologia permite que o público se isole em tribos e a mídia foi atrás: ofereceu o jornalismo tribal.

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