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Jornalismo e o capitão

Derrotar a imprensa hoje não requer fechar redações ou aplicar censura verde-oliva

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2018 | 03h00

No próximo domingo, um capitão deve emergir vitorioso das urnas e o jornalismo poderá ser derrotado. Calma. Não me refiro a este jornal voltar a publicar receitas na primeira página, no lugar de reportagens censuradas. Assim como o jornalismo americano não estava preparado para Donald Trump, o brasileiro, apesar de ter observado os últimos três anos e desenvolvido defesas para esta era de pós-verdade, não está imune ao que se passa nos Estados Unidos.

Derrotar a imprensa hoje não requer fechar redações ou aplicar censura verde-oliva. O jornalista especializado em política estava acostumado a uma certa etiqueta por parte dos homens e mulheres que buscam o poder pelo voto. Lula não se elegeu até mandar o recado de que ia se submeter à etiqueta, na tal carta ditada pelo patriarca Odebrecht. Esta campanha inverteu a etiqueta e os profissionais que tomam decisões editoriais têm ponderações difíceis pela frente.

Uma das licenças que a mídia se concede é uma certa falta de transparência sobre como decide o que é importante e, portanto, notícia. Na era da pós-verdade, um inexistente kit gay suga o oxigênio de um ciclo de notícias, serve como distração e traz audiência porque, como sabemos, indignação gera cliques. O próximo presidente do Brasil pode não entender de economia, mas entende este processo muito bem. Ele cresceu com ferramentas digitais, à margem do jornalismo tradicional. Na semana em que o presidente americano chamou a atriz pornô de cara de cavalo no Twitter, o público aqui ficou no escuro sobre notícias muito mais legítimas e consequentes. O próximo presidente brasileiro se considera alma gêmea de Trump e claramente o imita na relação com o establishment do jornalismo, até no detalhe de que seus seguidores intimidam jornalistas com o mesmo entusiasmo.

Quem acompanha este momento nos EUA sabe que há um ressurgimento do jornalismo investigativo em curso. Mas há também, e temo a reprise brasileira, um grande esforço para defender a profissão de um governante que a define como inimiga do povo e se refere a todo fato que o contraria com a detestável expressão fake news, que foi preguiçosamente adotada por jornalistas no Brasil. Como resistir à tentação da vitimização corporativista? E, mais importante, como lidar com o fato de que o jornalismo sai desta campanha com a imagem de partido de oposição? O PT, é claro, se valeu deste recurso de atacar o mensageiro, associando jornalismo à elite contra o povo. 

O jogo hoje é mais pesado. O discurso não ataca a concentração de poder da mídia ou um preconceito de classe, ataca a identidade da mídia. E é uma propaganda bem sucedida porque se vale da constatação óbvia de que o jornalismo de empresas privadas está economicamente mais frágil do que há 15 anos. Num ecossistema em que Google e Facebook controlam 85% da publicidade, como dar proporção editorial à provocação do ex-líder da Ku Klux Klan quando ele comenta que nosso próximo presidente soa como ele? Toda cobertura é uma escolha de amplificação. Se um político centrista americano dissesse o mesmo não seria manchete.

Muito se celebrou a era digital como a democratização da informação. Uma minoria em redações não teria mais o monopólio do que chega ao público. Mas não se pode negar que este acesso universal também alimenta um jornalismo de enxame, em que repórteres vasculham ansiosos a rede social para publicar primeiro e todos perseguem a mesma história.

Espero que o jornalismo não chapa branca resista a repetir outros erros que testemunhei aqui. Um deles é a praga do bothsiderism, ou seja, todo fato tem dois lados. Em 1990, o ex-repórter do Washington Post Paul Taylor confessou que esse lugar num meio imaginário é, de fato, uma defesa. Ao procurar sempre uma versão a favor e outra contra, admitiu: ‘Sim, eu busco a verdade. Mas também busco refúgio. E me poupo de enfrentar maiores desafios.” O outro erro é um anseio de penitência porque um candidato foi tratado na mídia como outsider demais para ser viável. Sim, é preciso avaliar a cobertura, o apoio subestimado. A última pesquisa Datafolha revelou que o principal motivo da escolha do candidato e provável vitorioso, 30%, é querer mudança, com 25% logo atrás alegando rejeição ao PT.

Uma coisa é cobrir melhor o eleitor que decidiu a eleição. Outra é normalizar extremismo como uma representação do outro lado. Nenhum menos do que o New York Times tem sido acusado desta normalização ao cobrir nacionalistas brancos como se pisasse em ovos. Seu novo Publisher, depois de várias críticas, reclamou que não “morderia a isca de se tornar oposição, nem buscaria o aplauso de se tornar oposição.” É sensato. Mas não diminui o tamanho do desafio de não confundir o novo anormal com um novo normal.

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