Jornadas guiadas por um mestre do piano atual

Paul Lewis faz quatro apresentações na Sala São Paulo, interpretando concerto de Brahms e sonatas de Schubert

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2013 | 02h10

O contato inicial de Paul Lewis com o primeiro concerto para piano de Brahms foi aos 9 anos. De lá para cá, o fascínio só aumentou - e a peça tornou-se um dos pilares do repertório do pianista, atualmente com 41 anos, que a interpreta de hoje a sábado com a Osesp, regida por Frank Shipway, na Sala São Paulo. Com um bônus mais do que especial: no domingo, ele volta ao mesmo palco, agora para um recital com as três últimas sonatas para piano de Schubert, as mesmas de seu último e premiado disco, lançado em 2012.

"É uma das peças de verdade do repertório", diz Lewis no final da tarde de quarta, depois de ensaio com a orquestra, sobre o concerto de Brahms. "Para mim, é muito mais do que uma peça para piano e orquestra, é como se fosse uma sinfonia para piano. Isso porque o pianista precisa tirar uma variedade enorme de sons e coloridos do instrumento. É daí que vem meu amor por ela. Claro, isso significa uma grande dificuldade técnica, mas, no final, passar por ela é extremamente recompensador", completa.

Lewis nasceu em Liverpool em maio de 1972. Seu pai trabalhava nas docas e não havia nenhuma tradição familiar de relação com a música. Sua chegada ao piano foi tardia - começou estudando violoncelo (a escola não tinha professores de piano) e só aos 14 anos mudaria de instrumento. O talento, no entanto, atraiu mestres de peso - entre eles, o pianista Alfred Brendel, de quem foi um dos principais alunos. Desde cedo, interessou-se em especial por Beethoven e o grande repertório romântico. Tanto que, com pouco mais de 20 anos de carreira internacional, já tem no currículo a gravação de todas as 32 sonatas do compositor, além de seus cinco concertos para piano, sempre para o selo Harmonia Mundi.

Brahms, Beethoven - e o Schubert do recital de domingo. Na trinca de compositores, Lewis enxerga algo em comum no modo como escrevem para piano? "Há, sem dúvida, alguns pontos de contato", diz. "O principal deles é a maneira como vão muito além do piano. Se você pensa em um compositor como Chopin, a essência de sua obra está no foco que tinha na sonoridade do piano. Em Brahms, Beethoven e Schubert, há, ao contrário, uma preocupação com um som mais amplo, sinfônico mesmo. O piano é apenas o ponto de partida e, com ele, é possível fazer música de câmara ou mesmo uma peça de cores sinfônicas. Claro, eles não são os únicos a pensar assim, mas com certeza é algo que me fascina neles."

Brahms e Schubert eram grandes admiradores da obra de Beethoven. Mas Lewis não vê neles a tentativa de emular o mestre - pelo contrário. As sonatas de Schubert, diz, escritas já no final da vida do compositor, são testemunhos de um estilo bastante pessoal - e, em certo sentido, são o oposto da grandiosidade que ele identifica em muitas das peças de Beethoven, seguindo na direção de um clima mais intimista. Essas relações ele faz após anos dedicados a Beethoven. Na verdade, antes de embarcar no projeto de gravar suas 32 sonatas, era com Schubert que passava a maior parte de seu tempo no palco - assim, cada autor ilumina o modo como a obra de um e outro é interpretada. E, nesse retorno a Schubert, Lewis se propôs um desafio: interpretar suas últimas sonatas em 15 cidades do mundo, ao longo de dois anos.

"É um programa grande e ambicioso, eu reconheço", ele diz, deixando escapar um sorriso. "São três peças incríveis, muita música para absorver em uma só noite - e isso vale tanto para o público quanto para o pianista." Por que, então, programá-las desta forma? "Porque acredito realmente, e sinto também de forma muito forte, que esta é a melhor maneira de ouvi-las. Há uma jornada por trás delas, uma história de aceitação."

Falando de cada uma das sonatas que, para ele, "representam passado, presente e futuro", ele explica. "Em primeiro lugar, a Sonata n.º 19 em Dó Menor. Eu sinto nela um clima quase de terror, como se você estivesse sendo perseguido por algo. Não há revelações, não há revoluções, apenas a necessidade de lidar com essa ameaça que pode ser entendida como o passado."

Em seguida, passamos para a Sonata n.º 20 em Lá Maior. "Aqui, há a indicação de que se está chegando a algum lugar, começamos a entrar em acordo com o passado, estabelecendo com ele uma relação de paz. O final desta sonata é especial, um dos momentos mais bonitos de toda a música que conheço, é como se Schubert estivesse dando adeus a alguma coisa." E, por fim, a Sonata n.º 21 em Si Bemol Maior. "Já se define musicalmente uma direção diferente, um novo caminho. O compositor supera o que o incomoda, supera a sombra do passado e parte em direção a algum lugar - um lugar desconhecido, mas sobre o qual ele sente de maneira forte e é capaz de mostrar isso para nós."

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