Ludovic des Cognets/Divulgação
Ludovic des Cognets/Divulgação

Jornada noite a dentro

Sensação em Edimburgo, a peça Hotel Medea revive mito grego na madrugada

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

EDIMBURGO

Dançar com uma assassina. Pentear-lhe os cabelos. Festejar o seu casamento. Comer e dormir ao lado dela. Essas são experiências que o público compartilha em Hotel Medea. Criação de uma companhia - metade brasileira, metade britânica -, o espetáculo surpreendeu Edimburgo.

No grande festival de teatro escocês - o maior e mais conceituado do mundo -, a obra alcançou ares de unanimidade. Isso, apesar das dificuldades que impõe à plateia: começa às 23h45 e só termina no dia seguinte, às 6 h da manhã.

Celebrada pelos críticos, foi carimbada com a cotação máxima em quase todas as publicações especializadas. "Estranhamente poderosa", cravou o jornal Guardian. "A versão teatral de um porre de absinto", definiu a revista TimeOut.

Tantos elogios renderam também bons negócios. Em breve, essa Medeia tupiniquim, que brinca de cavalo marinho e bumba boi, poderá ser será vista em festivais dos Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e País de Gales. "Só nesta semana tivemos conversas com cinco pessoas de diferentes países, que querem nos receber. O espetáculo já fazia bastante sucesso. Só que, aqui, você tem um foco de visitantes que realmente muda a perspectiva do trabalho", conta o diretor Jorge Lopes Ramos.

A peça, que estreou em Londres em 2009 e já passou pelo Rio, também tem chance de vir em breve para São Paulo. "Já iniciamos conversas para colaborações futuras com a companhia, no sentido de estabelecer vínculos de longo prazo entre os dois países", diz Luiz Coradazzi, diretor de Artes do British Council.

Essa relação entre Brasil e Reino Unido é, desde sempre, um dos focos do trabalho do grupo. Não à toa, eles fazem questão de manter duas sedes: uma no Rio e outra em Londres. "A companhia em si é um híbrido. Essa é uma característica que levou muito tempo para as pessoas entenderem. Ouvi muitas vezes: "Vocês são uma cia. brasileira ou inglesa? Estão aqui ou lá?"A nossa decisão é estar nos dois lugares."

Tal mescla de culturas é uma das bases do espetáculo. Na releitura do mito grego de Medeia, a feiticeira que mata os próprios filhos por vingança, é brasileira, herdeira das tradições populares. Já Jasão, o traidor, é inglês. Durante toda a encenação, cada um deles fala em seu próprio idioma. Não importa onde a montagem esteja sendo apresentada.

"Hello, people, follow me", convida Ramos, sotaque nordestino carregado, falando em um megafone. Durante o festival, Hotel Medea ocupou diversos espaços de uma centenária faculdade de veterinária.

Trilogia. A jornada tem início na sala de dissecção de cadáveres, hoje desativada e transformada em um bar. É dali que o público partirá em cortejo até o outro andar.

Lá, participará de uma acelerada disputa dos argonautas pelo velocino de ouro. Acompanhará o primeiro encontro de Jasão e Medeia, enquanto um DJ toca ao vivo. Terá que dançar, tocar chocalhos e banhar os noivos. Duas horas da manhã. Fim da primeira parte do que será uma trilogia. E é difícil sentir sono.

Seguimos, no entanto, para um quarto cheio de beliches. Ganhamos uma xícara de chocolate quente. Babás nos contam histórias de ninar. Todos os espectadores transformam-se em filhos de Medeia. Será dessa perspectiva que irão acompanhar a traição de Jasão. Agora, um político em plena campanha eleitoral.

Revoltada, a feiticeira irá tecer sua vingança. Na parte final, sua casa será transformada em um clube só para mulheres. Elas irão chorar por seus corações partidos. Já na plateia, quem quiser escapar da sanha da mãe assassina, precisará se esconder.

Criada em Londres, em 2001, a companhia Zecora Ura sempre buscou locais alternativos: garagens, trens, banheiros. Todo seu teatro, explica o diretor, emerge da relação que eles estabelecem com os espaços. Mas também com as plateias e com o tempo.

Hotel Medea foi concebido com o propósito de fazer um evento que se estendesse da meia-noite ao amanhecer. "Queríamos algo que fosse difícil, quase impossível de se produzir, e no qual a plateia tivesse de se comprometer, que não fosse fácil de consumir", diz o diretor.

Atravessar a noite em claro. Fazer os participantes se sentirem dentro de um jogo, brincando de ser outras pessoas. Tudo isso faz parte do programa. Mas não exclui a preocupação com a dramaturgia nem a força da tragédia que é levada à cena. "Essa história da Medeia é relevante para nós. Lida com um tema que ainda é um tabu: a noção da violência na mulher, a sua capacidade de tomar decisões, de não ser punida", considera Ramos. O tema desperta especial interesse em Persis-Jade Maravala, codiretora da cia. que costuma devotar-se a figuras excluídas: o migrante, a mulher, o terrorista.

Para o próximo espetáculo, o foco continua no trágico. Com estreia prometida para 2014, será uma versão de Woyzeck. Mas, ainda que a obra de Georg Büchner seja um clássico, não convém esperar por nada muito convencional: toda a ação acontece em um estacionamento e o público irá acompanhará tudo de dentro dos carros.

A REPÓRTER HOSPEDOU-SE A CONVITE DO BRITISH COUNCIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.