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Jorge Luis Borges reflete sobre tango e cultura em fitas inéditas

Cinco horas de gravação do escritor, com três conversas ocorridas em 1965, foram reveladas ao público

05 de novembro de 2013 | 18h51

Gravações inéditas apresentadas nesta terça-feira, 5, mostram o escritor argentino Jorge Luis Borges, morto em 1966, em quase cinco horas de reflexões que partem do tango e levam a diversas outras considerações culturais e sociais. As fitas foram reveladas ao público pela viúva dele, Maria Kodama, e por Cesar Antonio Molina, diretor da Casa do Leitor, da Fundação Sanchéz Ruipérez, onde está depositado o material cedido pelo escritor Bernardo Atxaga. Elas registram três conversas ocorridas em 1965, em Buenos Aires. Um audiolivro foi editado pela Fundação Sanchéz Rupérez e a Fundação Borges, junto com a Anaya.

Em determinado trecho, Borges deixa claro que não lhe agrada o mais famoso cantor de tango argentino, Carlos Gardel, pois ele teria algo de "sentimento chorão". Também fala sobre como amava as músicas da velha guarda e da milonga. O próprio aparece cantando e, segundo suas palavras,  faz a performance de um tango "corretamente desafinado".

Kodama recorda que Borges contou-lhe que, quando criança, viu dois homens dançando tango na rua, uma vez que as mulheres se recusavam a fazê-lo - diziam que não podiam exibir-se com um homem daquela maneira. "Com o tempo e, quando em Paris começaram a dançar tango, as mulheres, por esnobismo, começaram a dançar na Argentina também", alfineta o escritor nas gravações. "O tango surge nos mesmos lugares em que surgiria depois o jazz nos Estados Unidos. Ele levou o nome da Argentina para todas as partes do mundo".

O estilo musical, entretanto, é, em várias ocasiões, somente um pretexto para desenvolver também sua incrível memória e sabedoria sobre diferentes assuntos. "O tango é uma desculpa para falar do mundo; de Walt Whitman,  Lugones, Homero, Modernismo, Rubén Darío, Juan Ramón Jiménez, Valle Inclán, milonga. Reconstrói Buenos Aires desde o princípio do século. Fala de guitarras e violinos, dos covardes e valentes, das letras do tango e da decadência física da mulher", esclarece César Antonio Molina.

As fitas, explica Bernardo Atxaga, por videoconferência, foram recebidas de um amigo. Este, por sua vez, as ganhou de outro amigo que as deu como pagamento de uma dívida. Atxaga mandou o material para o catedrático de Oxford e grande especialista e biógrafo de Borges, Edwin Willamson, que se certificou que eram do escritor e inéditas. Logo Maria Kodama, a quem César Antonio Molina também enviou as fitas, as considerou verídicas. 

 

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