Jorge Dória estrela comédia de Molière

Molière, cujo nome verdadeiro era Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673), era filho de um tapeceiro rico, mas abandonou uma confortável situação financeira familiar para fundar L´Illustre Théâtre, na Paris de 1643. Tornou-se um gênio da comédia francesa. As 32 peças que escreveu formam um panorama da hipocrisia, ganância, hipocondria, avareza e inveja que infestaram a sociedade francesa do século 17. L´Avare ou O Avarento é um exemplo da crítica mordaz com que Molière rebaixou os homens tomados por um excessivo apego ao dinheiro, beneficiados pelo poder patriarcal da época.Uma nova versão da peça, com o ator Jorge Dória, sob direção de João Bethencourt, chega hoje a São Paulo, depois de apresentações em 37 cidades do Brasil, para um público estimado em 380 mil pessoas. É o segundo Molière no currículo de um ator que caracterizou sua carreira como comediante em programas de TV, como no atual Zorra Total (TV Globo), em telenovelas (Que Rei Sou Eu?, Meu Bem Meu Mal e Zazá) e no teatro, em montagens populares como A Gaiola das Loucas ou em Escola de Mulheres (também de Molière). "Só não montei outras peças desse gênio porque elas demandam grandes elencos", comenta o ator, que comemora 81 anos de vida e 55 de carreira."Por uma questão de rentabilidade, os produtores preferem montar peças com poucos atores." Exceção foi aberta a O Avarento, que coloca em cena um elenco de 11 atores. Além de Dória como o protagonista Harpagão e Jacqueline Lawrence, no papel da casamenteira Frosine, compõem o elenco Henrique César (Anselmo), Gláucia Rodrigues (Elisa), Marcio Ricciardi (Valério), Janaína de Prado (Mariana) e Edmundo Lippi (Cleanto).Pai rival - "Qualquer negócio com pobre é um pobre negócio", diz Harpagão. A trama, muito bem urdida em 1668, centra fogo num pai que tenta a todo custo casar seus filhos com pretendentes afortunados. Ele próprio está de olho em Mariana, ou melhor, no seu dote. Mas terá como rival o próprio filho, Cleanto, que suspira de verdade pela moça. Os qüiproquós, então, são cuidadosamente planejados por Frosine, que quer tirar vantagens com as uniões."Molière retratou os costumes de sua época valendo-se das máscaras da commedia dell´arte", ressalta o diretor e dramaturgo João Bethencourt (autor de Bonifácio Bilhões e A Ilha de Circe). "Todos os vícios de seus personagens agridem o amor, representado sempre por um par de namorados, diante dos quais o lirismo torna-se engraçado. Mas o amor sempre sai vencedor em suas comédias", destaca Bethencourt, que de Molière dirigiu também Tartufo (Prêmio Governador do Estado do Rio pela direção), em 1975, e em 1996, As Malandragens de Scapino.Cacos - O avarento de Jorge Dória compõe-se de cacos e improvisos. "É a vida dele que vai para a cena", ilustra o diretor, na 12.ª parceria de montagem com o ator. "Dória é um grande raconteur (narrador, contador de histórias). É a maneira dele encarar o mundo e as pessoas, sempre de forma sardônica e corrosiva. Molière teria aprovado qualquer bom caco de um grande ator", compara Bethencourt. "Improvisar, para mim, é como bater à máquina ou dirigir um carro depois de anos: acontece de maneira totalmente espontânea", atesta Jorge Dória.Molière escreveu Harpagão para ele mesmo representar. A peça surgiu depois de As Preciosas Ridículas, Tartufo, Georges Dandin e O Misantropo. O Avarento foi um fracasso à época. Os ridículos da sociedade denunciados pelo artista causavam o ódio da burguesia. Mas artistas invejavam-no, apesar de uma série de fracassos no início da carreira.O Avarento. De Molière. Tradução e direção João Bethencourt. Duração: 110 minutos. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 25,00 (sexta) e R$ 30,00. Teatro Hilton. Avenida Ipiranga, 165, tel. 3259-6508. Até 31/3.

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