Jorge Caldeira prepara livro sobre "O Estado"

Uma série de histórias verídicas motivou o jornalista e escritor Jorge Caldeira a iniciar o ambicioso projeto de contar em livro a trajetória de O Estado de S. Paulo, mas uma em particular o fascina. Em julho de 1917, o sapateiro espanhol José Iñeguez Martinez morreu durante o confronto da cavalaria policial contra manifestantes que defendiam a greve geral, decretada dias antes. A morte de Martinez foi o estopim para que a greve se alastrasse, atingindo toda a cidade. "Como não havia entidades confiáveis, o impasse foi resolvido na redação do Estado por uma comissão de jornalistas do jornal e de outros oito veículos de comunicação, que intermediou a negociação entre governo, empresários e grevistas", relata Caldeira. "Trata-se de uma importante constatação da relação que sempre existiu entre o jornal e a comunidade." Autor de obras como Mauá - O Empresário do Império (Companhia das Letras) e A Nação Mercantilista - Ensaio sobre o Brasil (Editora 34), Caldeira sentiu-se fascinado pela longevidade do jornal, mesmo passando por diversos momentos turbulentos. "É um fato raro no Brasil e mesmo no mundo, o que exige uma explicação."Disposto a encontrar as respostas, o escritor colocou-se em ação. O que habitualmente dificulta o trabalho de um pesquisador criterioso - escassez de documentos - não atrapalhou o de Caldeira. "Na verdade, como todas as edições do jornal estão arquivadas, meu problema era excesso de material."Auxiliado por uma equipe de cinco pesquisadores, Caldeira iniciou o processo de catalogação de documentos que, somados até o momento, já atingem a incrível marca de 700 mil. "Ainda tenho muito o que analisar para então preparar o que será o esqueleto do livro", conta o jornalista, que pretende ainda realizar uma série de entrevistas para detalhar as histórias.Bibliografia - Se dispõe de um farto material no arquivo do Estado, Caldeira lamenta, porém, a falta de uma bibliografia consistente sobre a história da imprensa brasileira, em que pudesse se apoiar. Segundo seus levantamentos, não existem mais que 50 obras sobre o assunto.Outro problema, que poderá ser parcialmente resolvido com as entrevistas, é a reconstituição oral da história. Novamente o problema da escassez: praticamente não existem registros a respeito da trajetórias dos meios de comunicação antes da década de 30. "Mesmo com as entrevistas, é preciso ter cuidado, pois toda informação deve ser checada para se evitar confusões provocas pela falha da memória."Como a execução do projeto ainda está na fase inicial, o jornalista acredita encerrar o trabalho dentro de um ano e meio. As primeiras conclusões, porém, já podem ser tiradas. A principal é a posição independente que norteou o jornal ao longo de sua história. "Apesar de criado durante uma convenção do Partido Republicano, o Estado (que na época se chamava A Província de São Paulo) nunca se vinculou a esse ou a qualquer outro partido", observa. "O que não é fácil acontecer em momentos turbulentos enfrentados pelo jornal."Também em seu início, o jornal já revelava sua preocupação social - logo na primeira edição da Província, de 4 de janeiro de 1875, entre críticas duras ao regime monárquico ("enfraquecido pela própria amplitude ditatorial das atribuições que exerce"), o jornal prega mais atenção à educação. "Eis uma posição inovadora, que acompanhou sempre sua linha editorial como no apoio à criação da Universidade de São Paulo."Censura - Caldeira notou ainda um fato importante: durante toda sua história, o Estado sofreu diversos períodos de perseguição da censura que, somados, chegam a 20 anos - isso sem contar o período entre 1940 e 1945, em que o jornal ficou sob a intervenção da dituraVargas e que é excluído de sua história editorial. A resistência sempre existiu, principalmente durante o regime militar iniciado em 1964.Em dezembro de 1968, o Ato Institucional nº 5 consolida a guinada autocrática do movimento dos generais e ganha a manchete do jornal: "Novo ato; Congresso em recesso". Como submanchete, figurava o seguinte texto: "Estado é apreendido", por causa do editorial Instituições em frangalhos, que se tornou um símbolo na luta do jornal contra o autoritarismo. "A resistência é uma das principais marcas da história do Estado", comenta Caldeira.A funesta ação da censura seria imortalizada pela irônica publicação dos versos de Os Lusíadas no lugar dos textos proibidos. A presença de censores na gráfica do jornal impunha mudanças drásticas na primeira página, como a substituição de matérias consideradas proibidas para publicação de cartas de leitores e anúncios internos.Outra importante constatação da pesquisa de Caldeira é a presença de nomes consagrados nas páginas do jornal. "Praticamente todas as pessoas importantes do século 20 escreveram no Estadão", lembrando de intelectuais como o etnólogo francês Lévi- Strauss.Jorge Caldeira pretende criar uma obra complexa, que narre a importância histórica do jornal, que ocupou quatro diferentes sedes em São Paulo: primeiro na esquina da Rua do Tesouro com Rua do Comércio, depois na antiga Rua de Imperatriz (atual XV de Novembro), em seguida na Rua Major Quedinho até o edifício atual, no bairro do Limão.Capas Históricas - Veja neste sábado, na edição do Maga.Zine (www.estadao.com.br/ext/magazine/maga19/) o lançamento do livro 125 anos de história nas páginas do Estadão e concorra a um exemplar.

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