Jorge Amado no mundo da fantasia

Marcos Jorge comanda set de filme inspirado em Os Velhos Marinheiros

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h10

Dona Flor, Gabriela, Tieta, Teresa Batista. As personagens femininas de Jorge Amado se sobressaem em suas adaptações para a TV e o cinema, mas as masculinas também rendem, vide o recente Quincas Berro D'Água "vivido" por Paulo José no filme de Sérgio Machado. Agora, As Fantásticas Aventuras de um Capitão, versão de Marcos Jorge para o pouco conhecido romance Os Velhos Marinheiros ou o Capitão-de-Longo-Curso, apresenta os inacreditáveis Vasco Moscoso de Aragão e Chico Pacheco, dois homens que disputam a predileção do povo da miúda e monótona cidade de Periperi.

O primeiro papel foi entregue ao ator português radicado em Hollywood Joaquim de Almeida, e o segundo a José Wilker, em seu terceiro Jorge Amado. Vasco é um navegante que desembarca em Periperi vindo de mares distantes, cheio de histórias fantásticas. Charmoso, fascina os moradores com relatos de tempestades, naufrágios, icebergs, tubarões, jogatinas e mulheres que deixou pelo caminho.

Chico, um aposentado, fica enciumado, porque antes de sua chegada era ele o maior contador de causos do pedaço, quem inventava um mundo para entreter seus interlocutores. Ele passa a questioná-lo. Acusa-o de ser uma fraude e investiga seu passado. "Tanto um quanto o outro são donos de algumas verdades que se aproximam da verdade verdadeira. Jorge deve ter se inspirado em causos de pescadores", diz Wilker.

O cenário é uma cidade litorânea no início do século 20. E, com os efeitos especiais, a cargo do espanhol Juan Tomicic, ganhador de oito prêmios Goya, o Oscar espanhol, o público acompanha, através da narrativa de Vasco, alguns de seus episódios mais incríveis.

O Estado acompanhou uma tarde de gravação, no colégio Sagrado Coração de Maria, locação do Alto da Boa Vista que se tornou rotineira no cinema brasileiro, por oferecer diversidade de ambientes. No fundo do bar de Periperi, abre-se a sala de comando do barco de Vasco. Nas paredes de madeira, graças à futura inserção de chroma key, será possível ver um iceberg se aproximando - e blocos de gelo entrando pela janela. Em outras cenas, o barco enfrenta ondas gigantes. A intenção é que a fantasia invada mesmo o cotidiano dos periperenses.

A produção é da Total Filmes, com parceria portuguesa. O orçamento está em R$ 8 milhões, quase oito vezes maior que o de Estômago, o primeiro - e superpremiado - longa de Marcos Jorge, distribuído desde 2007 por 23 países. O diretor curitibano não desconhece que a expectativa é enorme. "Quando a pessoa faz um filme bom, acontece isso. Mas para mim é sempre começar do zero, não é algo que me preocupe muito."

A história de Jorge Amado se passa no litoral da Bahia, mas a de Marcos Jorge não se localiza - Periperi está no litoral brasileiro, mas não há sotaques (nem baiano, tampouco o lusitano de Joaquim, que foi amenizado com a ajuda de uma fonoaudióloga). Isso porque o diretor acredita que a história é universal: poderia se passar em qualquer porto.

A produtora Walkíria Barbosa, da Total, que negociou o filme por dez anos com a Warner, detentora dos direitos de adaptação, nem sabia, mas ele é grande fã do autor. Leu tudo entre os dez e onze anos, numa biblioteca pública, inclusive Os Velhos Marinheiros. O livro foi publicado pela primeira vez em 1961, num volume que incluía A Morte e A Morte de Quincas Berro D'Água.

"Muita gente leu e não lembra, e muita gente não leu", acredita Jorge. "É uma obra-prima, um dos romances mais lindos dele, que fala sobre a criação artística. Curiosamente, nunca se fez nada, só conheço uma adaptação teatral, do Ulysses Cruz, que milagrosamente eu vi. Isso é bom, porque guarda uma surpresa."

As filmagens começaram em abril e, passaram pelo Arsenal de Marinha do Rio, o barco milionário de Eike Batista, a praia de Grumari, a Joatinga e o Centro Cultural Banco do Brasil. O elenco tem Patricia Pillar, Claudia Raia e Milton Gonçalves, entre outros. A estreia está prevista para o fim do ano.

Joaquim, que foi o Sherlock Holmes de O Xangô de Baker Street, e participou de séries de TV e filmes pelo mundo, aceitou o convite assim que leu o roteiro, entregue por Jorge no Festival de Cinema do Rio de 2010. "É um personagem muito rico. Ele nunca foi capitão de nada, e se manda para Periperi para viver na fantasia. Como ele fala! São páginas e páginas de monólogo. Eu fiz cem filmes, e nunca vi um roteiro em que eu falasse tanto."

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