Jonathan Haagensen

Nasceu no Rio, ganhou o mundo com cidade de deus, é estrela de Bróder, tem uma banda e não para nunca, mas não deixa o morro do Vidigal, onde cresceu, por nada

Flávia Guerra, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Ainda que central, você cresceu em comunidade periférica, o Vidigal, e foi o Cabeleira de Cidade de Deus. Como é agora estrelar Bróder, que se passa no Capão Redondo, bairro simbólico da periferia de São Paulo?

Incrível. Tirando o clichê do paulista ser mais fechado que o carioca, a pobreza e a vida em comunidade são iguais em qualquer cidade. Bróder revela uma realidade que não se vê muito. Há muito filme sobre favela carioca, mas não sobre paulistana. No Rio, as favelas mais centrais têm o poder de parar uma cidade. Se a Rocinha para, o Rio para. Em São Paulo, a favela é mais isolada. O descaso é o mesmo, mas não sinto a tensão tão à flor da pele. Os paulistanos têm mais a onda de afirmar a identidade de acordo com o bairro de onde vêm. Em geral, quem é do Capão não frequenta os Jardins. No Rio, mistura mais, mas há segregação até mesmo dentro da periferia.

Foi difícil "virar mano"?

Depende. Há diferenças além do sotaque. Há uma dinâmica própria em cada bairro. Mas Jaiminho não é "mano malandro". É um garoto bacana, que está, como outros amigos de infância, perdido no mundo. A questão é onde vai se encaixar. Virou jogador de futebol famoso, mora na Espanha. Não é mais da perifa, mas no Capão estão suas origens. Bróder não é sobre o Capão. É sobre amizade.

Ainda que seja retrato fiel do cotidiano da periferia paulistana?

Sim. O diretor, Jefferson De, usa o Capão para contar a história de três garotos que cresceram juntos. É um lugar que, pela cena rap e hip-hop, é famoso, mas poucos a conhecem, "de dentro", a vida em comunidade.

Você, além dos filmes, ganhou fama fazendo novela. Aos 27 anos, sente que tem responsabilidade com a nova geração?

Quando fiz Paraíso Tropical, em 2007, e a série Mutantes, 2008, ganhei moral com as crianças. Elas me paravam na rua! Mas é bom. Estou sempre na ativa e sei que os meninos prestam atenção. Tenho uma produtora cultural, tenho uma banda, a Melanina Carioca, e continuo atuando. Abri uma lanchonete no morro e, claro, vou sempre participar das atividades do Nós do Morro, de onde saí para fazer Cidade de Deus. O Vidigal é minha história. É onde cresci e onde estão meus amigos. Quero estar sempre ali.

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