Jon Amiel, o homem que ama reinventar casais em crise

Antes do filme, o cartaz. O de Criação, de Jon Amiel, mostra o personagem principal, o cientista Charles Darwin, à direita da imagem. Ele tem o braço estendido e seu dedo toca o de Jenny, a fêmea de orangotango que desempenha um papel importante na história e na pesquisa que garante a imortalidade do autor - a teoria da evolução das espécies. A imagem reproduz o célebre afresco de Michelangelo na Capela Sistina. O toque sublime de Deus e do homem, a Criação.

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

A imagem é significativa. Ao pesquisar sua teoria, Darwin foi acusado de subtrair ao Criador seu papel na construção do universo. Ele próprio, Darwin, quereria ser Deus. O filme trata do conflito e da tentativa de harmonizar Ciência e Religião, com maiúsculas, por meio do casamento de Charles Darwin e Emma. A história é a de um casal em crise. Perderam a filha, e a garota assombra o pai, aparecendo a toda hora. É para ela que Darwin conta as histórias de suas pesquisas e a garota tem uma atração toda especial pela história de Jenny. Chora cada vez que o pai relata como Jenny morreu.

O casamento de Darwin e Emma metaforiza o da religião com a ciência. A perda da filha fornece outra metáfora e é justamente a da teoria da evolução - a luta diária, ao longo dos milênios, que fez com que algumas espécies se fortalecessem e sobrevivessem. Existem críticos que contestam as liberdades narrativas, mas Paul Bettany, na entrevista ao lado, conta como o próprio tataraneto de Charles Darwin estava presente, se assegurando de que as liberdades não comprometiam a história real.

Jon Amiel não é um diretor que desfrute de muito prestígio junto à crítica. Formado em literatura, na universidade Cambridge, adaptou Mario Vargas Llosa (Tia Júlia e o Escrevinhador), mas seu melhor filme anterior a este era Sommersby, o Retorno de Um Estranho, que realizou baseado em Le Retour de Martin Guerre, de Daniel Vigne. Já era o filme sobre o estranhamento de uma união, entre Jodie Foster e Richard Gere, que precisava superar grave crise.

Casamentos que precisam ser reinventados são o material que atrai Jon Amiel. O de Criação possui múltiplos significados, envolve personagens reais (e significativos do ponto de vista da história do desenvolvimento intelectual e científico do homem). A história de Criação trata da História. Jon Amiel busca não banalizar o gênio, mas entendê-lo. Darwin, afinal de contas, fez da sua fragilidade a própria força. Teve uma grande mulher a seu lado. Paul Bettany e Jennifer Connelly, que fazem os papeis, também são casados na vida. Boa parte da filme vem do que acrescentam às cenas.

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