Johnny, June e o resto

Um dos grandes trovadores da música americana, apaixonado pela cantora June Carter, foi ao inferno e voltou para contar a história. Sua autobiografia, para quem tem estômago, será lançada no Brasil

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

A conturbada trajetória do cantor americano Johnny Cash (1932-2003) por vales e picos de flagelo e redenção se equivale a uma parábola bíblica dos tempos atuais. Ele tornou à casa como o filho pródigo após ser consumido pelo uso de drogas; encontrou Jesus em meio a tempestuosos surtos de destruição e tentativas de suicídio; ressurgiu inúmeras vezes do ostracismo para reafirmar sua importância como um dos maiores trovadores do século 20 e cantar em composições que falavam ao povo com uma sinceridade ímpar.

Mas o verdadeiro milagre é que o cantor de Walk the Line, que trajava luto pelo sofrimento de penitentes e oprimidos, tenha sobrevivido a seus altos e baixos para contar a história em duas autobiografias, a segunda das quais está sendo traduzida para o português pela editora Leya e tem lançamento no Brasil previsto para novembro. A primeira, Man in Black, é de 1976.

Cash: The Autobiography foi escrita nos anos 90, durante a última de suas ressurreições artísticas. Na época, o cantor já era considerado um defunto do country quando Rick Rubin, o produtor de Red Hot Chili Peppers e Beastie Boys o convenceu a voltar ao estúdio. Com sua voz esfolada, imbuída de uma espiritualidade adquirida através de anos de sofrimento, o cantor gravou os excelentes primeiros discos da série American e voltou às graças do público.

Como nos discos, a sabedoria de um velho contador de histórias ciente de que seu fim está próximo permeia as páginas da narrativa.

A primeira metade rodeia o abismo das infelicidades do cantor com histórias de turnê, como os cômicos dramas de consciência do pastor e baluarte do rock Jerry Lee Lewis, que após ver jovens se esfregando uns nos outros ao som de seus hits declarava: "Eu estou aqui fazendo o que Deus mandou, mas estou levando todo mundo para o inferno. E é pra lá que eu vou se continuar cantando." Ou as desmitificações de Elvis que, de acordo com Cash, no início de sua carreira nada tinha de aloprado mas era tão invejado pelos outros cantores que foi estigmatizado como tal.

Mas Cash conta seus melhores causos ao relembrar a bela história de amor que teve com June Carter, sua alma gêmea, e ao se deparar com o "cachorro negro", nome que dá ao lado escuro de sua personalidade. Algumas das desventuras pelo lado B são tão deprimentes que, fosse Cash um melhor escritor, o impacto seria devastador.

Viciado em anfetaminas, barbitúricos e tudo o que viria a matar os ídolos do rock nos anos 60, Cash passava dias alucinado no deserto como um protótipo de Jim Morrison. Sua loucura o levou a botar fogo em uma reserva nacional, a pegar um avião e se transferir de um hospital com medo de que soldados de elite fossem plantar uma bomba em seu dormitório, e a quebrar a porta do quarto de seu guitarrista a machadadas ? feito que, em suas palavras, o levou a ser o "pioneiro do vandalismo de motel que tanto é glorificado no rock de hoje em dia".

Com uma franqueza relutante o cantor explica todo o processo de destruição que as drogas tiveram, primeiro em seu corpo (acordava com a sensação de que vermes o comiam vivo), depois em seu casamento (sua culpa o impedia de voltar para casa). Por último, sua voz. Certa vez, nos anos 1960, ficou completamente mudo em frente à sua plateia.

Mas Cash saiu do fundo do poço tantas vezes quanto chegou lá. Na mais marcante delas, ao sofrer de síndrome de abstinência, tinha se enfiado em uma caverna no meio do Tennessee, almejando se perder e morrer de fome. Foi quando sentiu uma sensação de bem-estar inexplicável e uma brisa o guiou à entrada da caverna. Quando saiu, lá estava sua mulher, o esperando com uma cesta de maçãs.

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