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John Wayne, um xerife à prova do tempo

Sai em DVD e Blu-Ray, o primeiro Bravura Indômita, clássico de 1969

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

Uma nova caixa de DVDs resgata filmes importantes estrelados pelo maior caubói do cinema - John Wayne. Entre eles está Bravura Indômita, de Henry Hathaway, de 1969, que valeu ao ator de John Ford e Howard Hawks o Oscar da Academia. Bravura Indômita (True Grit) sai também em Blu-Ray. O senso de oportunidade da distribuidora Paramount é notável. Todo mundo vai querer comparar a lendária criação de John Wayne com a de Jeff Bridges no remake assinado pelos irmãos Coen. O novo Bravura Indômita, que abriu ontem o 61.º Festival de Berlim, estreia hoje.

John Wayne esculpiu, em clássicos de Ford e Hawks, o mito do mocinho. Ambos os autores fizeram a crítica do personagem que ajudaram a criar. Wayne foi envelhecendo diante da câmera de ambos, mas ninguém explorou tanto a decadência física do astro quanto Hathaway. "Venha visitar esse velho gordo de vez em quando", despede-se o xerife Rooster Cogburn de Mattie Ross (Kim Darby) no desfecho do Bravura Indômita, depois que ajudou a garota a vingar a morte do pai.

É com esse objetivo que Kim surge na vida do xerife. Mais determinada, impossível - "Meus Deus, você me lembra de mim mesmo", é outra frase famosa de Wayne no filme. Rooster Cogburn, que viveu mais uma vez - em outro filme em que Wayne dividiu a cena com Katharine Hepburn -, é uma raridade entre xerifes do Velho Oeste. Mesmo na fase de desmistificação do gênero, nunca houve outro como ele. Balofo e mesquinho, frequentemente bêbado, Cogburn usa um tapa-olho, como o padrinho de Wayne, o grande John Ford. Na maioria das vezes um modelo de retidão - nos filmes de Ford, Hawks e do próprio Hathaway -, o astro repete aqui uma frase que não se ajusta muito bem ao conceito do bom-mocismo. "Dispare antes, do jeito que puder, e pergunte depois se o adversário quer se entregar vivo."

O filme concentra-se nesse personagem único, mostrando como ele aceita a encomenda da garota e a cumpre. Rooster Cogburn é um personagem cômico e, muitas vezes, a força da comédia vem do fato de Wayne representar seu personagem como se fosse dramático. Embora tenha feito grandes westerns a sério, o diretor Hathaway, morto em 1982, tinha um bom timing para comédia - e já havia dirigido John Wayne em Fúria no Alasca, em que o duelo final, uma instituição do gênero, é substituído por uma briga no barro que deixa todo mundo enlameado.

Desta vez, é a própria conceituação do mocinho impecável que vai para o lodo - em termos, porque Wayne está condenado a ser mocinho, como os pistoleiros do entardecer de Sam Peckinpah, e, no final, dispara para uma carga heroica como se fosse um cavaleiro medieval em sua liça. É pouco provável que os Coen tenham feito uma refilmagem. É mais provável que tenham voltado à fonte do livro de Charles Portis, centrado no embate entre o novo e o Velho Oeste, representado pela menina. John Wayne já havia perdido um pulmão para o câncer, quando fez o filme - ele morreria da doença em 1979. Sua respiração ofegante talvez não seja somente técnica de representação, mas poucos mitos foram tão fundo na arte de se (auto) parodiar. Wayne chorou ao receber seu Oscar. O durão tinha o coração mole, ou então sabia que a Academia e ele estavam se despedindo de um certo cinema clássico.

Seria muito bom se o novo Bravura Indômita e o revival do antigo levassem os críticos a repensar a contribuição de Henry Hathaway. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard observa que os historiadores de cinema muitas vezes se recusam a colocar Hathaway no panteão dos grandes. Sem razão. Westerns, filmes de aventuras, policiais. Hathaway não se fixou num gênero, embora, eventualmente, preferisse os bangue-bangues. Deixou impressa sua marca em obras que nem o tempo, nem o vento, vão levar.

BRAVURA INDÔMITA

Direção: Henry Hathaway. Distriguidora: Paramount. Preço: R$ 59,90.

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