John Travolta não morre jamais

É bom lembrar que a música eletrônica, graças a Deus, não nasceu com o rebolation das raves

Claudia Assef, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Eu devia ter uns 5 anos, mas me lembro perfeitamente do cheiro de laquê que minha mãe passava no cabelo para finalizar o visual elegante que ia desfilar com meu pai pelas discotecas de São Paulo no fim dos anos 70. Assim como a música de pista daquela década, pomposa e rica em detalhes, o glamour dos dançarinos também era imprescindível nos tempos da disco music.

Naquela época, dançava-se ao som de discos de grandes orquestras como a Love Unlimited, grupo de 40 músicos que acompanhava o mestre da música de alcova Barry White, ou ainda a Salsoul Orchestra, uma das big bands mais cultuadas até hoje por fãs de black music.

Nas discotecas, os DJs - então chamados de discotecários - mesclavam hits orquestrados com música lenta, num domínio tamanho do público que se conseguia vender mais ou menos bebidas de acordo com o que estava rolando no som - havia até o truque de tocar Champagne, de Peppino di Capri, para fazer os mais animados comprarem suas garrafas do espumante.

Quem não viveu os anos de ouro da disco pode comprovar em filmes como Os Embalos de Sábado À Noite a importância que o visual tinha para aquela geração. Numa das cenas mais engraçadas, John Travolta arruma uma briga feia com o pai porque o velho desfizera o penteado que ele havia levado horas para arrumar.

Pode ser que nunca mais se veja a pompa dos dançarinos dos anos 70, mas a trilha sonora dos tempos das discotecas está cada vez mais forte nas pistas.

O avanço da tecnologia tornou possível a reprodução do som de uma orquestra inteira usando um simples software. Essa facilidade tem aproximado os produtores de música eletrônica do som rebuscado dos anos 70 - seja criando novas músicas com timbres antigos ou atualizando músicas para ouvidos de hoje (são os chamados re-edits, versões mais fortes e dançantes para velhas músicas).

Exemplo dessa influência está num dos álbuns mais aguardados deste primeiro semestre, Head First, da dupla inglesa Goldfrapp. O disco soa como se tivesse sido feito em 1977. Estão ali referências à programação eletrônica que o produtor Giorgio Moroder apresentou por meio da diva Donna Summer em faixas que viraram hino, como I Feel Love.

Uma ouvida geral em Head First também traz à lembrança pitadas de Abba, com suas melodias felizes e grudentas. Essa nova cara do Goldfrapp, dupla cultuada desde o disco de estreia, o sombrio Felt Mountain (2000), desagradou aos fãs que esperavam algo novo, mas vai de encontro à febre que já há algum tempo vem tomando conta da produção de música eletrônica.

Reconfigurado e com o nome de nu disco, o gênero já tem até um país que se firmou como referência, a gélida Noruega. São de lá os DJs e produtores Lindstrøm, Prins Thomas, Todd Terje e Bjørn Torske, nomes que andam entre os mais adorados por DJs e gente que quer abastecer o iPod de boa música para chacoalhar.

No Brasil, vários DJs já abraçaram a disco em suas apresentações. O paulistano Renato Cohen, que já foi famoso por tocar um tecno pesado, recheou seu primeiro álbum, Sixteen Billion Drum Kicks, lançado no fim do ano passado, de timbres setentistas. E não é só isso, Cohen tem investido no garimpo de velhas faixas de disco obscuras para tocar ao vivo.

Muito mais do que saudosismo, esse resgate da música de pista dos anos 70 ajuda a lembrar de onde viemos e que a música eletrônica, graças a Deus, não nasceu com o rebolation das raves. Às vezes é bom voltar ao passado para entender melhor o presente.

Claudia Assef, 35, é autora do livro e blog Todo DJ já sambou e editora executiva do Portal Virgula

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