John Cage, um inventor

Gilberto

O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h06

Mendes

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Dei uma passada no velho Heinz, a choperia mais querida aqui de meu bairro do Boqueirão, e que possui, entre outros méritos, o de estar situada a apenas uma quadra e meia de onde moro. Comemoravam lá o lançamento do segundo número da belíssima revista cultural santista Guaiaó, de nosso grande fotógrafo Marcos Piffer. Sabia que iria encontrar por lá o escritor e amigo Flávio Viegas Amoreira, e que ele fatalmente iria me provocar, como sempre.

- Então, não vai escrever sobre o John Cage? Ele faria 100 anos, agora!

Mas escrever o que se ele é desses artistas sobre os quais já se escreveu tudo? Aí eu me lembrei, de repente: caramba, eu mesmo participei do primeiro concerto no Brasil em que uma obra de Cage foi tocada. E que memorável evento! Um concerto que se tornaria até histórico, pelo inusitado que foi o acontecimento.

Em novembro de 1965, o inquieto maestro Diogo Pacheco decide produzir um real concerto de música de vanguarda no conservador Teatro Municipal de S. Paulo. Algo pra valer, como nunca ainda havia sido ouvido no Brasil. E contrata, entre outros músicos da área erudita, como a Orquestra de Câmara de S. Paulo, do maestro Olivier Toni, o então muito requisitado pianista popular Pedrinho Mattar, no auge de sua fama como pianista do badalado Juão Sebastião Bar, como era chamado.

Coube a este inesquecível pianista entrar em cena com um metrônomo na mão, que colocou em cima do piano, dar-lhe corda e voltar aos bastidores. Retorna ao palco com um despertador, que coloca sobre o piano ao lado do metrônomo. Fecha a tampa do teclado, deita os braços sobre ele e finge dormir. Passados 4 minutos e 33 segundos o despertador toca, o pianista acorda, recolhe o despertador e o metrônomo, e sai de cena.

E "O Municipal quase vem abaixo", segundo esta manchete sensacionalista na primeira página do jornal Última Hora, como se fosse a notícia de uma incrível ocorrência policial. O público tradicional do Municipal protestou, gritou, vaiou, tumultuadamente, discutiu aos berros, os estudantes nas galerias jogando aqueles programas duros como pelotas nas cabeças dos puristas frequentadores do tradicional teatro enquanto alguém na plateia gritava "não mexam em meu Mozart!", que estava sendo citado em minha obra "Blirium C-9", que o mesmo Pedrinho Mattar também estreava, acompanhado pelo cravista Paulo Herculano e o inesquecível percussionista Ernesto de Luca. Paulo Herculano, desesperado, chegou a tocar um acorde com sua testa, era demais! D. Jéssia, diretora do teatro, pensou em chamar a polícia para nos proteger na saída.

Por tudo isso, esse verdadeiro "happening" mereceu reportagens de páginas inteiras até de jornais cariocas, como os velhos Correio da Manhã e Jornal do Brasil, matéria na revista Manchete e outras. E o poeta Décio Pignatari fez a análise completa desse memorável concerto em seu livro Informação. Linguagem. Comunicação, publicado pela Editora Perspectiva.

Essa foi a estreia brasileira de John Cage, e eu estava me esquecendo de que participei do extraordinário evento, que curiosamente aconteceu no mesmo palco de outro escândalo histórico que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, no mesmo Teatro Municipal de S. Paulo. Teatro fatídico, com um destino marcado...

E que música era aquela, de John Cage, se nada foi tocado? Exatamente o ruído da reação do público a tão extravagante provocação. E essa foi a proposta musical que ele levou a Darmstadt, com a qual balançou o coreto da "neue Musik alemã", impressionando sobretudo Stockhausen.

Boulez até certo ponto se interessou pela novidade, mantendo um diálogo epistolar com Cage. Mas chegou a um impasse. Não abdicava de suas posições estéticas por uma música pensada em termos absolutamente estruturais. O interessante, porém, é que essas duas principais posições estéticas da música de hoje, no fundo, não deixam de ser as duas faces de uma mesma moeda.

Schoenberg costumava dizer de John Cage, seu ex-aluno, que ele não era propriamente um músico, era mais um inventor. Recente e magnífico CD "preparado em Curitiba" pelas pianistas Lílian Nakahodo, Grace Torres e Vera Di Domenico mostra que não é bem assim. Seu piano preparado pode ser algo deliciosamente musical, muito legal de se curtir.

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