John Burningham ainda é o mestre O Rei do Cor

Desenhistas novos amam seu estilo e modo de contar histórias

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2011 | 00h00

Os críticos de literatura infanto-juvenil da Inglaterra costumam associar a casa do ilustrador e escritor John Burningham, de 75 anos, às maluquices que as crianças inventam em seus livros. É que a casa de Burningham, na exclusivíssima área londrina de Hampstead, parece um museu medieval com suas janelas de vidro, portas góticas e uma lareira de pedra, um pouco à maneira do castelo imaginado pela sonhadora garotinha de Hora de Sair da Banheira, Shirley!. Ela é a menina loira que entra muda e sai calada nesse livro, que a Cosac Naify lança simultaneamente a Fique Longe da Água, Shirley!, ambos concebidos no fim dos anos 1970 pelo premiado autor, que mora há 30 anos na mesma casa de Hampstead. Foi de seu refúgio medieval, por telefone, que Burningham, interrompendo a audição de uma peça de câmara de Mozart, concedeu uma entrevista ao Estado para falar dos livros e de sua carreira.

Burningham é um mito da ilustração. A coreana Suzy Lee (do best-seller Onda, que vendeu mais de 100 mil exemplares em um ano, também publicado pela Cosac Naify), começou a desenhar influenciada pela original forma de contar histórias inventada por ele. Além de criar situações que só podem ser imaginadas segundo uma perspectiva infantil, Burningham mostra o contraste entre a percepção da realidade pelo adulto e sua transmutação no imaginário da criança, contrapondo os traços sintéticos do mundo dos pais à folia cromática do universo dos miúdos. Em ambos os livros agora lançados, as páginas pares são reservadas aos poucos traços que definem a personalidade dos pais. As ímpares trazem exuberantes desenhos coloridos com tinta, carvão e lápis de cor, mostrando como Shirley se imagina numa aventura de piratas na praia (em Fique Longe da Água, Shirley!) ou como uma estrangeira derrotando rei e rainha numa corte medieval (em Hora de Sair da Banheira, Shirley!), enquanto sua mãe recolhe a roupa suja e enxuga o chão do banheiro.

As páginas pares trazem invariavelmente o discurso da mãe, sempre interditando ou repreendendo Shirley. Ela, nas ímpares, não replica e nada fala, construindo uma narrativa sem palavras. É o verbo autoritário contra a imagem libertária. Força de hábito. Burningham, rebelde quando criança, passou por dez colégios até ser mandado aos 12 anos para Summerhill, a célebre escola britânica criada pelo educador escocês Alexander Sutherland Neill (1883-1973), conhecida por seus métodos liberais. Nela, os alunos podiam ou não assistir às aulas. Burningham preferiu se trancar na sala de artes e foi ali que tudo começou. "Fiquei feliz por ter tanto tempo para desenhar em Summerhill e também por ter encontrado um professor de literatura que me deixava livre para pensar." O escritor saiu de lá com um diploma na matéria. Segundo ele, o 11.º mandamento deveria ser "Não Aborrecerás Ninguém". E ele o segue à risca.

Seus livros são divertidos, bonitos e trazem personagens com os quais se simpatiza automaticamente. O primeiro deles foi um ganso sem penas chamado Borka, nascido em 1963. "Naquela época, eu andava entusiasmado com o traço de Saul Steinberg e com o cartunista francês André François", observa, revelando que sentia, no entanto, vontade de trilhar um caminho próprio, evitando o tom moralista dos livros infanto-juvenis de sua época. Um exemplo de personagem que caminha na contramão da parábola educativa convencional é o garoto de Edwardo: The Horriblest Boy in the Whole Wide World. O Edwardo do título é um menino infernal, de cabelos arrepiados, que chuta cachorros, fala alto, se comporta como um ogro à mesa e é criticado por todos. Nenhuma palavra de carinho ou afeto. Só punição. Resultado: Edwardo se esforça ainda mais para entrar no livro dos recordes como o garoto mais horrível do planeta. Você já ouviu essa história antes: certamente ela se parece com a dos jovens rebeldes que saem por aí explodindo a si e aos outros.

"Não acho que meu trabalho seja político, porque detesto propaganda e odeio pregação por meio de livros, mas o fato é que não dá para sair por aí bombardeando as pessoas e esperar que elas mudem seu modo de estar e agir no mundo." Se Deus descesse à Terra, diz ele, ficaria muito aborrecido com a imensa bagunça dos bípedes racionais, como ele imagina no livro Whatdayamean? (1999), em que duas crianças mostram que fazem a diferença neste mundo de lunáticos. Pai de três filhos e avô de um trio de netos, filhos de Lucy, Burningham diz que não tem muito tempo para eles, porque está trabalhando mais que 20 anos atrás. Casado com a também ilustradora Helen Oxenbury, ele raramente aceita ilustrar livros de outros autores, como no passado - Burningham é o ilustrador e criador do protótipo do carro de Chitty Chitty Bang Bang, de Ian Fleming, que inventou James Bond, o agente 007.

Burningham acha um pouco aborrecido o universo infantil contemporâneo dos jogos eletrônicos e afirma que jamais criaria um deles. Atualmente se dedica à pintura. Quer, a exemplo de Turner, descobrir os segredos da luz instável que muda a paisagem o tempo todo. "Ele é um mestre e eu só estou começando no negócio", diz, modesto. Sobre sua influência, admitida por muitos ilustradores novos além de Suzy Lee, o ilustrador é ainda mais modesto: "Não tenho diálogo com desenhistas da nova geração, mas sei que meu trabalho é muito popular entre os coreanos". Suzy Lee conta que seus pais costumavam ler os livros de Burningham para ela antes de colocá-la para dormir.

"Acho que ainda é o melhor método de educar as crianças", comenta o ilustrador. Para homenagear a cama dos sonhos infantis, ele criou há oito anos o livro The Magic Bed. Nele, George, um garoto maior que o normal, ganha dos pais uma cama usada com poderes mágicos. Traduzidos, claro, pela cor do mestre.

QUEM É

JOHN BURNINGHAM

AUTOR E ILUSTRADOR DE LIVROS INFANTIS

Nascido em 1936 em Farnham, no condado de Surrey, Inglaterra, o ilustrador John Burningham trabalhou para a BTC inglesa, desenhando cartazes de ônibus antes de escrever livros infantis, alguns já traduzidos no Brasil, como Cadê o Júlio?, cuja versão é assinada por Ana Maria Machado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.