Johann Sebastian bar

Um holandês põe letras de Bukowski em Bach e leva o barroco ao pub

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

A unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Mas mesmo este diagnóstico certeiro tem uma exceção: Johann Sebastian Bach. Em seus 65 anos de vida, distribuídos entre 1685 e 1750, ele construiu uma obra que sintetiza passado, presente e prefigura o futuro. Uma mágica que não mais se repetiu na história da música. Daí afirmações como esta, de Maurício Kagel, um dos mais radicais criadores contemporâneos: "É possível que nem todos os músicos acreditem em Deus, mas todos, sem exceção, acreditam em Bach". De seu lado, a musa do blues Nina Simone confessou que "quando compreendi a música de Bach, desejei ser pianista clássica. Bach me fez dedicar minha vida à música." Definitivo mesmo foi o compositor alemão Max Reger: "Bach é o começo e o fim de toda a música." Mozart arranjou prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado para quarteto de cordas; Beethoven e Chopin sempre tinham à mão o Cravo, que tocavam diariamente.

Preferência que virou obsessão com os músicos e compositores do século 19. Estes arranjaram, parafrasearam e transcreveram suas obras com imenso apetite. E um frenesi que, de certo modo, voltou a frequentar concertos/shows e gravações no último meio século. O grau de liberdade vem se elevando a cada empreitada em torno de Bach até explodir em experimentos radicais, tanto do lado erudito quanto do pop.

Quem agora rompe limites de fato é o holandês Willem van Ekeren. Em seus 55 anos ele canta como um blues singer os ácidos versos do célebre poeta beat norte-americano Charles Bukowski sobre peças de Bach para teclado tocadas com fidelidade à partitura. Ou seja, Ekeren tem mãos de pianista clássico e cabeça de blues singer - e os põe em prática simultaneamente. Começou estudando piano clássico ainda menino; desde a adolescência, formou várias bandas e em 1996 gravou o CD For the Rich; aos poucos retornou ao piano clássico. O insight BachBukowski aconteceu em 1994, quando lhe caíram nas mãos os poemas do bardo beat. "Em 1997", escreve Ekeren, "enquanto lia pela terceira vez os poemas, espantei-me porque o verso "you know and I know and they know" casava-se perfeitamente com o prelúdio em fá menor do Cravo Bem Temperado". No dia seguinte, juntou sons e versos no piano e na voz - estava lançada a pedra fundamental deste projeto absurdo, improvável, inesperado, surpreendente e arrebatador. (Atenção: gravado em tempo real, com o pianista cantando, como você pode comprovar no YouTube.)

A força dos versos cortantes de Bukowski amacia-se com o seu canto blueseiro e dolente; por debaixo desta linha vocal popular inserem-se 16 prelúdios e fugas dos dois livros do Cravo Bem Temperado. Ao todo, treze poemas de The Last Night of the Earth Poems, de Bukowski, transformam-se em letras de blues ou baladas concebidas no melhor estilo romântico, à maneira dos "wanderers" de Schubert.

Insanidade ou tolice arrematada? Sim, o que poderia ser só mais uma bobagem transforma-se em ouro ao fundir estes dois criadores tão remotos entre si em canções à Bob Dylan. Seria um folk singer erudito? Talvez blues-lieder, quem sabe. O contraponto cristalino de Bach ilumina os versos "sujos" de Bukowski, que por sua vez injetam um beat discretíssimo, quase tão cristalino quanto as vozes do contraponto bachiano. Walking and living through this, o CD ora lançado no mercado internacional pela gravadora holandesa Etcetera, não é a primeira amalucada fusion BachBukowski de Ekeren. Em 2003 ele lançou a primeira coletânea. Mas esta, de agora, parece uísque 18 anos: amadureceu, está no ponto.

O poema The Bluebird, por exemplo junta-se ao Prelúdio no. 18 em sol sustenido menor BWV 863 de Bach. Os versos dizem o seguinte (em tradução literal): "Há um pássaro azul em meu coração / que quer sair / mas sou duro demais com ele / ordeno-lhe que fique lá / não deixo ninguém vê-lo / há um pássaro azul no meu coração / que quer sair / mas eu lhe dou uísque / inalo a fumaça do cigarro / as putas e os barmen / até os funcionários de supermercado / ninguém sabe nunca que ele está lá". Cabem direitinho nos 1''47" de duração do prelúdio.

Igualmente curtem-se os versos duros de The Idiot sob a diáfana Fuga no. 5 em ré maior BWV 874. Nirvana / prelúdio no. 24 em Si menor BWV 893 e Peace / prelúdio no. 3 em dó sustenido maior BWV 872 são antológicos. É uma "viagem" e tanto - tão boa quanto as que levaram Bukowski, raramente lúcido, a tantos lugares, mulheres e jorros verbais que parecem melhores a cada geração que passa. Coisa de gênios .

BEM TEMPERADO

Três felizes

Atrevidos

1. BachVinicius

Em 1961 o poetinha de Ipanema foi assaltado por uma súbita paixão bachiana e pôs letra no coral Jesus, Alegria dos Homens, da cantata no. 147, que virou a marcha-rancho Rancho das Flores.

2. BachPixinguinha

O saxofonista e flautista Mário Sève e o cravista Marcelo Fagerlande intercalam peças de Bach e Pixinguinha, mostrando-os próximos no fino uso do contraponto (CD Núcleo Contemporâneo, 2001);

3. BachColtrane

O saxofonista francês Raphael Imbert, 37 anos, mistura Bach com John Coltrane, numa viagem que vai da Arte da Fuga à suíte A Love Supreme (CD Ziz-Zag, 2008). Com órgão, quarteto de cordas, contrabaixo e percussão.

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