JOGOS MORTAIS

Em Cine Monstro 1.0, Enrique Diaz volta ao autor Daniel MacIvor e interpreta série de personagens sombrios

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES CURITIBA, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2013 | 02h12

Há algo de pesadelo, de sonho desordenado e inquietante na criação que Enrique Diaz apresentou no primeiro dia de programação do Festival de Curitiba. Cine Monstro Versão 1.0 marca a terceira incursão do artista pela dramaturgia de Daniel MacIvor. Antes, Diaz já havia montado In on It - criação pela qual mereceu o Prêmio Shell de diretor em 2010 - e À Primeira Vista, peça protagonizada por Mariana Lima e Drica Moraes que chega a São Paulo no próximo dia 5.

Contudo, mesmo que o autor canadense continue no horizonte, a relação estabelecida pelo diretor com ele agora é de outra natureza. De certa forma, Cine Monstro traz uma matiz sombria a esse vínculo. Como se o escritor mostrasse agora o seu "lado negro". E viesse a mobilizar - no público e no intérprete - os impulsos destrutivos que a civilização convida a calar. "Ele joga com o fascínio que o mal, que o terror exerce. Aqui, todos os recalques são permitidos. É permitido matar o pai, e não só no sentido simbólico", observa o diretor, que também atua, desdobrando-se para dar corpo às muitas vozes que atravessam esse monólogo.

É uma história de pontas soltas que vão se juntando. Determinado a livrar-se da dependência química, há o homem que tem uma ideia para um roteiro. Também aparecem um diretor que abandonou seu filme antes do fim. Um casal em crise mesmo antes do casamento. Um menino, obcecado por um assassinato: sem parar, ele revisita o episódio de um vizinho que matou o pai cortando-o em pedaços.

O que está proposto é um pacto incômodo em que questões tão inescrutáveis quanto a violência, o excesso e a vingança estão presentes. "Trata-se daquilo que está em nós, do que vemos nos jornais, não só do que aparece nos filmes de terror."

A montagem apresentada no festival não está acabada. O que se viu aqui - e que o público de São Paulo poderá conferir em quatro sessões no Itaú Cultural - é apenas uma versão. Mas o diretor, que contou com a colaboração de Marcio Abreu, já definiu a cinematografia de horror como um dos eixos da obra.

A deixa para trazer o cinema já está no próprio texto: A ação começa no escuro. Um homem diz que o "filme já vai começar". Amparado por esse pretexto, Diaz convocou projeções para compor a cena. Em um telão, as imagens luminosas servem para guiar o espectador por uma mistura de vozes e tempos: são elas que marcam as trocas de personagens, cenários e climas. Outra função desse cinema vivo: ajudar a criar a aura de pesadelo que interessa ao diretor. "Queria forçar o público a fazer um jogo duplo: ouvir o texto ao mesmo tempo em que está tomado por aquelas imagens. Oscilar entre uma coisa e outra. Para que cada um pudesse, depois de fechar os olhos, ter apenas uns lampejos de cenas na cabeça."

"Jogo" é uma palavra valiosa para compreender o universo dramático desse dramaturgo. Seus títulos vêm invariavelmente lançar quebra-cabeças metalinguísticos. Poderiam ser descritas como narrativas em espiral, vertiginosas, com mistérios que são paulatinamente solucionados. Cine Monstro não é diferente. E relaciona-se de forma ainda mais intensa com a plateia, constantemente jogando "pistas" para quem assiste.

Escrito para ser interpretado pelo próprio MacIvor, o texto vem impregnado de sua experiência como ator. "É um espetáculo que precisa do público. Lembra, de alguma forma, um stand-up, só que neste caso existe um texto de ficção por trás."

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