Jogos e harmonia de rara beleza

Com ...qualquer coisa a gente muda, Angel Vianna presenteia o público unindo palco e sala de aula

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2011 | 00h00

A imagem que encerra o espetáculo com Angel Vianna, João Saldanha (encenador) e Maria Alice Poppe, ...qualquer coisa a gente muda - apresentado no fim da semana passada no Sesc Belenzinho - tem a contundência das sínteses poderosas, que nos deixam mudos. Uma mesa nua, de linhas retas e secas, que já compunha a cena, é coberta por buquês de flores claras. São muitos, uns depositados sobre os outros. Quando o amontoado está pronto, Angel coloca no meio dele um buquê menor de tons solares, que se conectam com o verde de outro ramalhete.

Depois de se assistir até aquele momento, não poderia haver construção mais poderosa. Ao mesmo tempo, ela encapsula o que se passou e abre conexões com a própria situação da dança, e não somente com a dança de Angel Vianna. Transformada em metáfora viva do tempo, aquela mesa nos conta, sobretudo, do fim. Fim dos espetáculos (momento em que os artistas recebem flores), fim das carreiras (a obra nos faz pensar quando é que uma carreira acaba), fim da vida (as flores que recobrem a mesa se tornam referências das que cobrem os mortos e, com o verde e as cores vivas, indicam também o ciclo da produção de vida).

Angel tem 82 anos e celebra 62 de uma carreira marcada por duas mortes decisivas: a de Klaus Vianna, seu marido, parceiro na reproposição dos modos de fazer dança no País, e a de Rainer Vianna, filho de ambos, que se propôs a sistematizar tais ensinamentos. Em tudo o que Angel faz, os dois continuam presentes, explícita ou implicitamente - como é o caso aqui.

O tempo se manifesta também nos contrapontos, nos jogos e na harmonia que se constrói entre Angel e Maria Alice. A delicada sensibilidade com que Saldanha dirige ambas conjuga o melhor de cada uma. Tudo se adequa em rara justeza: não há sobras nem faltas. Há encaixe delicado entre a naturalidade com que cada gesto surge e a precisão com que é executado que deixa exposto que o tempo, em alguns casos, apenas adensa a autoridade de certos talentos. Cada movimento de Maria Alice confirma a rara qualidade do "saber fazer benfeito" que distingue o artífice. O acabamento preciso e a elegância com que desenha cada uma das impecáveis linhas de sua dança produzem um daqueles momentos cada vez mais raros na atual hemorragia de espetáculos que vem escorrendo pelos nossos palcos, aquela sucessão de instantes nos quais uma bailarina reestabelece o que é, de fato, fazer jus a essa denominação profissional.

Quanto à Angel, nos presenteia com mais uma lição, juntando palco com a sala de aula à qual dedicou a sua vida. Ao escolher Maria Alice para compartilhar esse momento, nos diz que as cadeias que enredam os grandes mestres na sua continuidade se tecem na combinação entre o dia a dia do trabalho com os afetos que dele nascem por sintonia. A competência de Saldanha a ajudou a mostrar que é possível fazer do tempo um parceiro, e que a dor das perdas pode ser temperada com ironia e humor.

Talvez o mais precioso legado seja a oportunidade de perceber que a transformação é sempre possível para os que se põem a favor da vida. Angel dança agora de forma diferente, com outro entendimento de expressividade, o que torna recomendável voltar ao título dessa joia, ...qualquer coisa a gente muda. As reticências estão no início e a mudança, no fim, no verbo conjugado no presente. Não é pouca coisa. Ao invés de um trabalho retrospectivo, que remetesse ao passado, este nos joga no futuro que já está sendo preparado no presente. Um presente-futuro no qual, a qualquer momento, a gente muda o que for necessário.

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