Jogos de salão

Antes dos videogames havia os jogos de salão. Será que alguém com menos de, sei lá, 50, 40 anos, ainda participa de algum deles? Será que alguém com menos de 20 anos faz ideia do que seja brincar de mímica ou forca e jogar War ou batalha naval? Dessas e outras gincanas analógicas e geracionais, minhas preferidas eram as que desafiavam a memória e punham à prova a nossa limitada sapiência. Lembrar de cenas de filmes e nomes de personagens literários, por exemplo. Ou de palavras obscuras, que precisavam ser corroboradas por um dicionário sempre ao alcance dos contendores.

SÉRGIO AUGUSTO,

20 Outubro 2012 | 03h19

 

Letras de música também inspiravam animadas competições mnemônicas e até motivaram a criação de um show semanal da TV Record, com Caetano Veloso disputando pau a pau com Chico Buarque quem mais rapidamente se lembrava de uma letra que contivesse a palavra sorteada pelo apresentador do programa. Ainda nos anos 1960, o velho boteco Alvadia, nos arredores da Cinelândia, centro do Rio, serviu de arena a um restrito círculo de cinéfilos versados em trilhas sonoras para o cinema. Quem perdia, pagava o chope. Não dava para blefar, mas certos golpes baixos eram permitidos. De uma feita, pus na berlinda a música de Um Homem e Dez Destinos, um filme de 1954 dirigido por Robert Wise. Branco geral. Pudera: o filme nem música incidental tem. Quebrei a banca. Ou melhor, bebi de graça naquela noite.

 

Um dos passatempos prediletos da minha turma era aquele jogo de adivinha em muitos lugares chamado de Vinte Perguntas e na Inglaterra vitoriana de Sim e Não, conforme aprendi com Charles Dickens. Um participante pensa num nome e os demais têm 20 chances para decifrar de quem ou de quê se trata. Também pode ser disputado por duas pessoas apenas, como um duelo. Num memorável mano a mano com o futuro cineasta Walter Lima Júnior, cheguei ao abismo da 20.ª pergunta com os seguintes dados disponíveis: mulher, ficcional, pertencente à nobreza europeia e ligada a um personagem muito mais famoso do que ela. Na falta de outra opção, arrisquei a primeira figura com aquele perfil que me passou pela cabeça: Princesa Narda do Mandrake. Bingo!

 

Folguedo danado de bom é o Jogo do Crime, especialmente se programado para um fim de semana no campo, melhor ainda se estiver frio e a lareira acesa. Lembra Os Dez Negrinhos, de Agatha Christie. Com menos de seis participantes, não tem graça. O sorteado assassino escolhe em segredo sua vítima e a arma do crime. Tão logo sabe, pelo assassino, que foi morta, em tais e quais circunstâncias, a vítima emudece. Cabe ao resto da turma identificar o criminoso e solucionar o caso. Rubem Fonseca já foi, et pour cause, um aficionado dessa brincadeira.

 

Há 37 anos, no divertido romance ambientado no mundo acadêmico Invertendo os Papéis, David Lodge introduziu um jogo de salão que não sei se acabou adotado em algum campus universitário. O ideal é que somente professores de literatura e críticos literários participem de Humilhação - sim, é esse o nome do jogo, em que cada um dos convivas revela um ou mais clássicos da prosa ou poesia que nunca leu. Perde quem apresentar o maior número de lacunas em seu currículo de leitura. O supremo humilhado de Invertendo os Papéis é um professor que jamais leu Hamlet.

 

Livros, palavras e personagens continuam praticamente sem rivais no abastecimento de ideias para os jogos de salão que puxam mais pelo cérebro. Na casa do poderoso agente literário americano Andrew Wylie, hóspedes do calibre de Susan Sontag, Ian McEwan, Salman Rushdie, Martin Amis e Christopher Hitchens animavam a noitada imaginando novas aberturas para romances famosos, para os quais também bolavam títulos sem a força e a precisão dos originais, títulos, no máximo, "quase bons". Mademoiselle Bovary, por exemplo.

 

Toby Dick, Sr. Jivago, Adeus às Armas de Fogo, Por Quem os Sinos Tocam, Dois Dias na Vida de Ivan Denisovitch, O Grandioso Gatsby, O Amor nos Tempos da Gripe, Raspberry Finn foram outros "títulos quase bons" surgidos no salão de Wylie. Cá entre nós, bem pior do que O Grandioso Gatsby era o título que o próprio F. Scott Fitzgerald queria dar ao seu mais prestigiado romance: Trimalchio in West Egg. O escritor sugeriu mais uns três, igualmente horrorosos, que o sábio editor Maxwell Perkins vetou, emplacando o enxuto e consagrador The Great Gatsby.

 

O Trimalchio que inspirou Fitzgerald é mesmo aquele novo-rico romano inventado por Petrônio, em Satiricon, e evocado em prosa e verso por H.P. Lovecraft, Henry Miller, Octavio Paz e John Barth. Eis aí uma boa dica para um jogo em torno de personagens literários reencarnados em obras de diferentes autores. Mãos à obra, pessoal, pois eu ainda estou ocupado com títulos de qualidade duvidosa. Agora em versão brasileira.

 

Primeira sugestão (já que esta edição destaca Graciliano Ramos): Reminiscências do Cárcere. Não sei o que mais daria engulhos no velho Graça, se Reminiscências do Cárcere ou Memórias da Enxovia. O que mais aborreceria Clarice Lispector, que mudassem a fruta de Maçã no Escuro ou trocassem o escuro por breu? Avesso a afetações, Lima Barreto saltaria na jugular de quem ousasse dizer que Triste Ocaso de Policarpo Quaresma soaria mais elegante do que Triste Fim de Policarpo Quaresma.

 

Outras sugestões: Dona Flor e Seus Dois Esposos, O Tempo e o Minuano, A Vaca de Focinho Sutil, Próximo ao Coração Selvagem, A Batalha Corporal, Reflexos do Baile de Gala. Que Jorge Amado, Erico Verissimo, Campos de Carvalho, Clarice, Ferreira Gullar e Antonio Callado me perdoem a troça e, sobretudo, a enxúndia.

 

Fim do recreio.

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