Jogos de poder

Razões Inversas remonta A Bilha Quebrada, texto clássico que mira a corrupção

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2011 | 03h07

Corrupção generalizada. Mentiras desfiadas sem o menor constrangimento. Nenhum vestígio de ética ou moral. Poderia ser a súmula do noticiário dos nossos dias. Mas é o enredo que move A Bilha Quebrada, texto escrito por Heinrich von Kleist, em 1811.

Obra clássica do período que antecede o romantismo germânico, a peça é um dos maiores sucessos da Cia. Razões Inversas. Em 1993, mereceu montagem do diretor Marcio Aurelio. E, agora, quase duas décadas depois, é por ele retomada. "Já se passou tanto tempo que, mesmo para mim, o texto teve um amadurecimento", observa o encenador. "Abriram-se novas possibilidades."

Parte do calendário de comemorações da companhia, que acaba de completar 21 anos, o espetáculo tem estreia marcada para amanhã, no Espaço Parlapatões. Ambientado no tribunal de um pequeno vilarejo holandês, trata dos desvios de caráter do juiz Adão: homem que se aproveita do pequeno poder que detém para manipular os outros e adquirir vantagens. Com inegáveis contornos contemporâneos - particularmente no Brasil -, a trama se movimenta a partir de um pequeno incidente: uma moringa, também conhecida como bilha, que foi quebrada.

Interpretada pela sempre vivaz Lavínia Pannunzio, a parteira Marta recorre à Justiça para reclamar a perda do objeto. Será essa situação, pretensamente banal, que revelará a verdadeira índole de cada um dos personagens envolvidos.

Toda a querela ocorre justamente no momento em que o povoado recebia a visita de um corregedor. Diante dele, o magistrado Adão (Joca Andreazza) tentará manipular o julgamento do caso da bilha. Reiteradamente, buscará incriminar um inocente. E, aos poucos, passará da posição de juiz à de réu. "Vivemos hoje um quadro de absoluta ausência de ética", diz o diretor. "Fazer teatro é se posicionar política e esteticamente diante das coisas que estão acontecendo."

Levada ao palco pela primeira vez por Goethe, a peça se sustenta em um arguto jogo de palavras. O duelo verbal vale-se do duplo sentido de vários termos e dos diálogos ágeis. Na atual montagem, o tom belicoso também está ressaltado pela cenografia de Marcio Aurelio: o tribunal onde se desenrola a história merece o formato de um ringue de boxe.

Clássico. Mesmo sem negligenciar a emergência de novos autores - Agreste, peça que consagrou o dramaturgo Newton Moreno, surgiu pelas mãos de Marcio Aurelio - a Razões Inversas mantém um estreito laço com os clássicos. É da própria natureza do grupo o apreço pelas grandes obras da literatura dramática universal. Foi com esse pressuposto que eles surgiram: o de redimensionar grandes textos do passado para a contemporaneidade. "Essa ideia de trabalhar os clássicos está nos alicerces da companhia", lembra ele. "A peça clássica é como o mito. Se o mito não se transforma, não tem mais mito. Tem folclore, qualquer outra coisa."

Recentemente, o diretor assinou a primeira encenação brasileira de A Ilusão Cômica, texto que Corneille escreveu no século 17. E, para 2012, o foco não deve ser diferente. A trupe tem planos de se debruçar sobre Woyzeck, a obra-prima que Georg Büchner concebeu em 1836.

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