Jogos de cenas e sombras em The Turn of the Screw

Trama original é construída sobre um universo de sugestões

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h19

A importância do espetáculo The Turn of the Screw, de Benjamin Britten, não se resume apenas à qualidade intrínseca da montagem, mas na maneira como mostra o salto de qualidade que o Teatro São Pedro pode dar quando respeita as suas características, apostando em um repertório mais intimista em acordo com sua dimensões físicas e com o processo de desenvolvimento de seus corpos estáveis.

Britten criou sua ópera a partir do livro de Henry James. A trama original é construída sobre um universo de sugestões. A autora do libreto, na hora de adaptar a novela, achou por bem dar um ar concreto a alguma delas - como os fantasmas de Peter Quint e Miss Jessel. Isso, no entanto, não torna mais fácil o trabalho de levar a história ao palco, afinal ele é composto de 16 cenas, cada uma delas em um ambiente diferente.

A solução encontrada pela diretora Lívia Sabag e o cenógrafo Nicolás Boni é o primeiro ponto a ser destacado no espetáculo, que tem hoje sua última récita. Com poucos elementos e em diálogo com a música, ou seja, respeitando a estrutura de tema e variações colocada pelo compositor, eles conseguem recriar a diversidade de ambientes com soluções simples e inventivas. Assim, o papel de parede de um quarto da casa pode rapidamente se transformar em uma floresta; ou o uso da iluminação (assinada por Wagner Pinto) permite, em alguns momentos, como o início do segundo ato, a recriação simultânea de quatro ambientes distintos.

A direção de Lívia Sabag aposta também no trabalho de interpretação dos atores. O ritmo da trama é vertiginoso e, ao mesmo tempo, entrecortado pela divisão frequente de cenas. Ainda assim, é bastante fluente o modo como são retratadas as transformações pelas quais passam as personagens - sejam os meninos Miles e Flora, vividos por Gabriel Lima e Valentina Safatle, seja a Governanta, interpretada pela soprano Luísa Kurtz -, apoiadas por uma movimentação cênica precisa, da qual é bom exemplo a cena em que Miss Jessel retorna ao quarto agora ocupado pela nova governanta.

A regência de Steven Mercurio é também responsável pela fluência dramática do espetáculo - e, em que pesem alguns problemas pontuais de afinação, o desempenho dos músicos da Sinfônica do Teatro São Pedro foi bastante satisfatório. Vocalmente, o grande trunfo da montagem foi apresentar novos talentos, como Luísa Kurtz, ou revelar novas possibilidades interpretativas de cantores como o tenor Juremir Vieira, no papel de Peter Quint, e a meio-soprano Luciana Bueno, que vive Miss Jessel. No papel da dúbia Mrs. Grose, Céline Imbert mostrou por que é uma das grandes damas da história do canto brasileiro, em particular na cena, carregada de tensão, em que conta a história de Quint e Jessel. Somados todos esses elementos, esse Turn of the Screw se torna um marco do São Pedro nesses 15 anos desde que foi restaurado - e sugere a possibilidade de um futuro promissor.

COM OBRA DE BRITTEN, TEATRO SÃO

PEDRO CONSOLIDA SUA TRAJETÓRIA

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