Jogo de duplos de 'Fedora' expõe o terror de Billy Wilder

Penúltimo longa dogrande diretor sai emnova roupagem, mas está longe de ser um de seus 'clássicos'

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2014 | 02h06

Billy Wilder sempre amou os duplos e os travestis. A prova está em filmes como A Incrível Suzana, no começo de sua carreira, em Quanto Mais Quente Melhor, a comédia que muitos críticos consideram sua obra-prima, ou então em Fedora, o penúltimo filme que realizou. O lançamento em DVD da Versátil possui duas horas de extras. Wilder volta aos bastidores de Hollywood, que já focara em Sunset Boulevard/Crepúsculo dos Deuses. Muitos elementos são comuns a ambos os filmes - o clima noir (mas Fedora é colorido), a narrativa na primeira pessoa, a obsessão pela morte.

Sunset Boulevard começa com um morto numa piscina, e ele conta a história. Coincidentemente - mas não é mera coincidência, claro -, o ator que faz o morto, William Holden, é o narrador de Fedora. O filme começa com um suicídio - uma mulher joga-se diante de um trem -, mas a cena parece tão fake que você seria capaz de jurar que é uma filmagem de Ana Karenina. Holden faz agora um produtor e Ana Karenina é justamente o filme que ele vem propor à mítica Fedora, que vive isolada, como a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses.

Norma queria voltar, Fedora prefere manter-se fora de cena. O flash-back conta isso e também a descoberta que Holden faz sobre o entourage que a cerca na mansão isolada. Muitos diretores inspiraram-se em filmes que Wilder fez, mas ele também se inspira - não apenas nos próprios filmes (Crepúsculo), mas também nos de outros autores. Quando Pedro Almodóvar apresentou A Pele Que Habito, a maioria da crítica disse que ele se havia inspirado em Les Yeux Sans Visage, de Georges Franju. Na verdade, Almodóvar pode ter-se inspirado em Fedora, e foi Wilder quem foi à fonte de Franju.

Há uma confusão de mãe e filha - uma mãe que sacrifica a filha para eternizar seu mito -, mas a filha, ao se vingar, estraçalha o mito. O mundo do cinema é autofágico e cruel, Wilder já o demonstrara em Crepúsculo, feito em 1950, quando tinha 44 anos - nasceu em 1906 -, e estava no auge. Quando fez Fedora, em 1978, estava com 72. Aos 68, concretizara sua derradeira obra de mestre, senão realmente uma obra-prima - A Primeira Página. Fedora, embora extravagante nas reviravoltas do roteiro mirabolante, deixa a impressão de que Wilder exagerou na escrita e depois quis recuar na realização.

Fez um filme 'clássico', talvez para remeter ao passado, em que já viviam os protagonistas de Crepúsculo dos Deuses. Holden já experimentara o gosto amargo da prostituição no outro filme. Está velho e cansado. Toda a expressão de Marthe Keller, que faz Fedora ou quem aparenta ser Fedora, está na voz. O rosto parece uma máscara, de tão estático. Na verdade, é uma máscara. Fedora fascina e horroriza. Se Crepúsculo era o mais noir dos filmes, esse é de terror. O terror dos mortos-vivos. / L.C.M.

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