Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão
Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Jogar é preciso

Na metade do século 20, o lazer e o tempo em família passaram por um processo de valorização, e um dos beneficiados foram os jogos de tabuleiro

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 03h00

Toda hora a ciência está descobrindo a importância de alguma coisa. É uma das funções dos cientistas, afinal, estudar o mundo e separar o que presta do que não presta. De vez em quando, alguns desses resultados chamam a atenção da mídia especializada, ganhando mais massa crítica. Até que, se é realmente interessante, o tema ganha a mídia leiga e tem a chance de conquistar o coração do público.

E assim, de tempos em tempos, a sociedade descobre a importância de algumas coisas. Autoestima, atividade física, dieta saudável. Vários desses temas já ganharam manchetes uma vez que sua importância foi demonstrada. Como consequência novos mercados surgem, para suprir a demanda das pessoas por produtos associados a tais descobertas.

Na metade do século 20, o lazer e o tempo em família passaram por um processo de valorização, e um dos beneficiados foram os jogos de tabuleiro. Presentes na humanidade praticamente desde sempre, talvez esse tenha sido o primeiro boom do segmento, levando à criação de títulos que até hoje estão por aí: de palavras cruzadas a War, grande parte do que conhecemos vem dessa época.

Mas a verdadeira era de ouro dos jogos do tabuleiro ainda estava por vir, quando uma subcategoria deles começou a ganhar espaço a partir do final do século, ficando conhecida como jogos de tabuleiro modernos. Eram títulos que valorizavam seus autores e tinham maior complexidade, tornando-se mais interessantes, visualmente mais bonitos e prendendo cada vez mais os jogadores, fosse por serem mais divertidos ou mais desafiadores.

No Brasil, essa tendência demorou um pouco mais para chegar, mas uma coincidência de fatores, desde a consciência da importância do tempo de qualidade com amigos até o crescimento econômico dos anos 2000, fez com o mercado aumentasse, ainda que lentamente. Surgiram editoras nacionais especializadas, ainda voltadas para um público de nicho, com produtos caros de autores estrangeiros.

Agora, parece estarmos entrando num novo capítulo dessa história. A pandemia acelerou a tendência de valorizarmos as reuniões pessoais, aumentando nosso desejo de sairmos da frente das telas e impulsionando novas apostas no mercado de jogos de tabuleiro. A Estrela, por exemplo, cujos jogos estão mais associados a brinquedos de criança na cabeça das pessoas, lançou a excelente iniciativa da linha Premium Games. São jogos modernos, que valorizam a estratégia e reduzem o peso da sorte, como em Herdeiros do Khan, criado por Rodrigo Rego e Lucas Ribeiro, em que os jogadores são descendentes do lendário Gengis Khan e precisam encontrar a melhor forma de saquear cidades para se tonar o próximo líder mongol. Com sua expertise de produção em massa a empresa abriu mão de usar componentes muito sofisticados e procurou designers brasileiros, duas estratégias que ajudam a reduzir o custo final, tornando o produto mais acessível.

Não sei se é ou não efeito direto da pandemia, mas num mercado até então nichado, a entrada de uma grande indústria tanto sinaliza o aumento da demanda como atua na expansão do público desse tipo de produto. Ou seja, um jogo em que todos ganham.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

Tudo o que sabemos sobre:
Jogo Educativobrinquedo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.