Joelhos

Sexta-feira, fim de tarde. Campinas. Eu e Marcelo costumávamos pegar o ônibus das 6. Passar o fim de semana em São Paulo: rever famílias, amigos, a cidade. Estudávamos na Unicamp, mas voltávamos em todos os fins de semana.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Sentamos. Ele na janela, eu no corredor. Ambos, cara de estudante, jeans surrados, cabelos longos, livros, apostilas, barbas malfeitas, abertos para experiências e crenças em utopias.

O ônibus estava para partir, quando ela entrou com o seu acompanhante, bem mais velho, chapéu de vaqueiro, mal-encarado. Nela, um vestido de linho, cabelos bem tratados, morenos, escorridos. Pele bem cuidada.

Nossos olhares se uniram. Sentaram-se na fileira detrás. Não sei quem na janela, quem no corredor. E eu não tinha nenhum motivo para me virar e checar. Somente uma apostila para estudar.

Na estrada, bancos arriados, luzes apagadas, silêncio. Só eu lia. Já no primeiro pedágio a vista cansou. Dobrei a apostila. Apaguei a luz. Me acomodei melhor. Estiquei as pernas. Deitei as costas. Descansei os braços, deslizando o cotovelo pelo apoio do corredor, num movimento involuntário.

Quando senti a frieza da pele do joelho do passageiro de trás no meu cotovelo. Um esbarrão. O dela.

Num ato instintivo, ela o tirou num susto, e corrigi a postura, o braço, para não invadir o espaço alheio.

Mas minha pele não se esquecia da dela. Queria conferir novamente a sua textura, temperatura, forma. Eu não podia, nem devia. Porém, todos dormiam ao redor. O escuro do ônibus era eventualmente cortado por faróis de carros que vinham na direção contrária. Apenas o teto se iluminava eventualmente.

Escorreguei desta vez voluntariamente o meu braço para trás. Meu cotovelo invadiu a área para as pernas do passageiro no banco traseiro. Deixei-o lá, solto no ar. Não era uma posição incômoda. Combinava com a postura de quem busca o descanso. Ofereci. E o não virou sim.

Ela encostou de leve o seu joelho nele. Senti novamente a temperatura, a textura. Não a forma. Pois encostou e tirou. Não bruscamente. Deu um cutucão simpático.

Deixei o cotovelo à espera de outra provocação. Que veio. Encostou e tirou. Encostou com mais força e tirou com menor rapidez. Um jogo?

Seu joelho se divertia com o meu cotovelo. Não brincava. Seduzia. Namorava. Sua pele também queria conhecer a minha textura e temperatura. Ia e voltava. Esfregava e parava.

Eu precisava rever o seu rosto. Que desculpa inventar para me virar de repente? E se o seu acompanhante, para poucos amigos, estivesse acordado? E se outros passageiros notassem e me denunciassem?

Poderia pedir fogo. Naquela época, fumava-se em ônibus, e estávamos na fileira de fumantes. Mas Marcelo fumou no caminho para a estrada. Saberiam que naquela fileira tinha fogo.

Poderia perguntar as horas. Mas teria antes que esconder, sem ninguém perceber, o meu relógio de pulso. Uma caneta?

Sim, um estudante, cuja tinta da caneta acabara. E ele se lembrou de um pensamento, com o balanço do ônibus e a escuridão dos pensamentos, que precisava ser anotado com urgência na apostila. É, uma caneta. Para um universitário, é fundamental como uma arma para um soldado.

Ainda sentado, virei apenas a cabeça. Olhei o corredor vazio, os passageiros apagados. Olhei para o seu rosto. Ela sorriu ao me ver. Uma dúzia de malícias nos seus olhos. Não descobri se seu acompanhante fora do campo de visão dormia. Ela, ahhh... Bem acordada, brilho no olhar.

"Você tem uma caneta para me emprestar?"

Nem se surpreendeu com a pergunta. Provavelmente, esperava que eu me virasse e tomasse uma atitude, apenas para que nos víssemos e checássemos se estávamos bem alertas e conscientemente nos tocando através de um joelho desnudo e um cotovelo invasor.

"Hum-hum", ela respondeu negativamente e sorriu, como se soubesse que eu não precisava de caneta.

Ainda grudei meus olhos nos seus por dois segundos, aqueles dois que são mais significativos do que muitos séculos.

Voltei para a minha posição. Recoloquei o meu cotovelo no vazio do espaço das pernas de trás. E ela, nada. Nada. Nada. Até encostar o seu joelho nele e, desta vez, não tirar.

Escorreguei mais o braço, e agora era a pele do antebraço que roçava seu joelho, que passou a me apertar, acariciar.

Ela se acomodou, se largou, agora era a perna que se encostava em todo o meu braço. Eu o movia com movimentos circulares sutis, ainda apoiado no encosto, e ela esfregava sua perna nele, apoiava, pressionava, escorria.

Enfim, deixei cair meu braço para trás. Ela abriu as pernas e o pressionou com os joelhos com força, como se o escondesse entre eles e o quisesse só para si. Minhas mãos passearam pela batata de sua perna, e ela se inclinou mais. Pele lisa, seda, linho, fria, que, quando eu subia a mão, esquentava.

Estiquei o braço para trás. Ela o apertou com a força de suas pernas. Girei o braço e encaixei a minha mão dentro do seu vestido. Abandonei-a por ali, intrusa, aquecida por suas coxas.

Ela, em movimentos mínimos, a namorou. Se consumiu. Meus dedos passearam pela penugem rala. Provocaram. Tocaram. Ela deixou. Ela quis. E ganhou, enquanto Marcelo dormia pesado, e seu acompanhante...

Entramos na cidade. As luzes agora invadiam as janelas. Meu braço estava de volta. Cheirei a minha mão.

Rodoviária da Barra Funda. Todos despertos. Portas abertas. Deixei ela e o acompanhante passarem, e fui atrás com o amigo. Descemos do ônibus nos olhando discretamente.

Na fila do táxi, eles exatamente na nossa frente. Nos namoramos secretamente, sorrindo e em pânico. Algo indicava que nunca mais nos veríamos. Vi desta vez: seus joelhos eram os mais lindos de todos.

Seu acompanhante entrou no táxi primeiro. Ela se virou para mim e olhou um adeus triste. Desesperado. Sem desfecho. E se foram.

Não comentei nada com Marcelo, com quem rachei o táxi. Pelo caminho, cheirei outras vezes a mão.

Nunca mais a vi. Por onde anda? O que será que fez da sua vida? E como estarão os seus joelhos? Descobri: são as partes mais lindas de uma mulher.

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