Joel Silveira lança suas memórias

Em determinado momento de suas Memórias de Alegria, Joel Silveira fala de seu retorno a um jornal, para uma visita anos depois de deixar de freqüentá-los. Ele começa a se lembrar das "redações antigas" por que havia passado. "E me vieram à lembrança todos os componentes daquele mundo caótico: o teclar incessante e nervoso das máquinas de escrever, a chegada de repórteres suados, as piadas grosseiras, o cafezinho excessivamente açucarado e morno, a intromissão de populares com reclamações e apelos" - em resumo, "era o caos!".Silveira conta ainda que, já na rua, virou-se para o amigo que o conduzira à redação, ascética e repleta de "engenhos de sensibilidade à flor da pele", e perguntou: "Você tem certeza de que acabei de visitar uma redação de jornal?" Para depois concluir: "Assim, até eu!"De um modo geral, essa é a marca das lembranças de Silveira reunidas nesse no livro: não há um tom de heroísmo no seu discurso, nem de saudosismo. As lembranças, boa parte delas de fatos secundários da vida política e cultural brasileira, funcionam mais como crônicas do que como registro histórico, e o repórter parece, depois de decorrido tanto tempo, poder falar livremente daquilo que não teve a pretensão ou o poder de mudar a cadeia de fatos.Os encontros com Getúlio Vargas e com João Goulart são absolutamente prosaicos. Jango, por exemplo, em 1974, conta do tempo em que visitava Getúlio, "exilado" em sua fazenda em São Borja, e tece uma singular teoria sobre o que é solidão, depois de, num intervalo de 15 dias, ver a mesma camisa de Getúlio largada num canto do quarto. Tancredo Neves praticamente apenas usa sua casa para um encontro secreto, em que Paulo Francis faz uma aparição inesperada. O jornalista Carlos Lacerda aparece como seu chefe, no tempo em que Silveira trabalhou para Assis Chateaubriand e seus Diários Associados, mas a ele não são reservados nem muitas críticas nem elogios.Aliás, são poucos os personagens que poderiam, a partir da leitura de Memórias de Alegria, figurar no rol de "inimigos" de Silveira - que, além de jornalista, sempre foi um grande provocador. Talvez caiba na classificação o governador mineiro Magalhães Pinto, que impediu o lançamento de um livro do governador de Sergipe, afastado depois de 1964, Seixas Dória, em Belo Horizonte, e Lourival Fontes, que, além de ter dirigido o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, responsável pela censura) de Getúlio, ainda se casou com a cobiçada poetisa Adalgisa Nery, viúva do pintor Ismael Nery.As lembranças dos escritores próximos a Silveira - José Lins do Rego e Rubem Braga, entre outros - são em geral simpáticas. Sobra uma farpa para Mário de Andrade, que fez ressalvas a um livro de contos de Silveira - o jornalista acabou sendo defendido por Graciliano Ramos.Muitas das histórias que Joel Silveira conta são velhas conhecidas. O talento de Antônio Maria para o fliperama, por exemplo, já está contado no livro Viagem com o Presidente Eleito, em que Silveira narra o período em que acompanhou Jânio Quadros antes que ele tomasse posse. Mas quem pode ou deve exigir originalidade de alguém que já viveu tanto e bebeu tanto uísque até recentemente - parou porque, como indica o título de um dos textos, para ele, Bebida é Conversa: "Parei de beber simplesmente pelo fato de não ter mais com quem conversar."Uma ressalva importante à edição de Memórias de Alegria: além de vários erros de digitação deixados pelo caminho, o livro reproduz de modo bastante incorreto os versos de Camões que servem de epígrafe e que sugeriram o título da obra, numa grave falha da revisão. A versão correta, integrante do canto 3.º, é: "E quanto, enfim, cuidava e quanto via,/ Eram tudo memórias de alegria."Serviço - Memórias de Alegria. Recordações de Joel Silveira.208 páginas, R$ 29,00. Editora Mauad (tel. 0--21-2533-7422)

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