Joe Sacco une reportagem de guerra e HQ

Nascido em Malta e radicado nos Estados Unidos, Joe Sacco formou-se em jornalismo antes de se dedicar aos quadrinhos. Na verdade, o autor uniu os dois conceitos de maneira brilhante ao produzir Palestina - Uma Nação Ocupada (Conrad Livros, 160 págs., R$ 23,50), lançado no Brasil no ano passado. Crônica de suas viagens a uma das regiões mais turbulentas do planeta, o livro é pródigo ao desvendar os nós de um conflito étnico que nem os melhores especialistas conseguem mais explicar onde começa e como termina. Por essas e outras, ganhou o prestigiado American Book Award em 1996.Sacco não deitou sobre o berço esplêndido. O autor está de volta com Safe Area: Gorazde, que a mesma editora prevê lançar na segunda metade de novembro, numa edição semelhante à de Palestina. O novo livro é a crônica de outra viagem do jornalista-cartunista. Desta vez para Gorazde, cidade bósnia de maioria muçulmana que foi considerada "área protegida" pelas Nações Unidas durante a Guerra dos Bálcãs.Sacco esteve quatro vezes em Gorazde entre o final de 95 e 96, durante um cessar-fogo que lhe permitiu trabalhar livremente e sem muitos perigos. Nessa viagem, conheceu o professor de matemática Riki, que atuou como seu guia e acabou se tornando um dos personagens principais do livro.De origem muçulmana, ele representa a grande maioria da população da cidade, que ficou isolada e açodada pelas facções sérvias nacionalistas comandadas pelo ex-líder iugoslavo Slobodan Milosevic. Nesta entrevista, feita por e-mail, Sacco fala sobre sua experiência nos Bálcãs, sua opinião sobre os conflitos étnicos e suas influências nos quadrinhos.Primeiro, a Palestina. Agora, a Bósnia. O que o faz trabalhar sobre esses assuntos? É a guerra, o conflito ou as pessoas que vivem nessas áreas turbulentas? Joe Sacco - Eu escrevi sobre esses temas porque me senti compelido, porque são temas importantes para mim. Há muitos exemplos de injustiça neste mundo, mas esses dois - Palestina e Bósnia - são os que me atraíram mais. Não sou um aventureiro. Em outras palavras, não estou interessado no conflito apenas pelo conflito.Esses livros retratam guerras étnicas - uma delas dura mais de quatro décadas. Qual o seu interesse nesse tipo de conflito? Acho o nacionalismo um conceito problemático em geral. Apesar de entender e apreciar pessoas que são orgulhosas de sua herança e conscientes de sua história, raramente vemos esses grupos olharem para si mesmos ou ao seu passado com algum tipo de autocrítica real. Conflitos étnicos parecem ser os mais mortais e problemáticos porque normalmente recaem sobre pessoas que viveram em paz por longos períodos. Quando você estava na antiga Iugoslávia, poderia ter ido para Sarajevo ou Srebrenica, duas cidades maiores e mais protegidas. Por que decidiu ir até Gorazde? Nunca fui a Srebrenica, embora tenha conhecido pessoas de lá. Eu fui para Gorazde simplesmente porque, durante o último cessar-fogo, havia a possibilidade de conseguir carona em um comboio das Nações Unidas apresentando meu cartão de imprensa. Não sabia o que ia encontrar pela minha frente. Eu me apaixonei pela cidade e aquele se tornou o foco do meu trabalho na Bósnia. Pelo que li, você não passou por situações de perigo real durante a sua estada. Nada aconteceu? Enquanto eu estava na Bósnia, o tiroteio havia cessado nas áreas onde eu vivi e trabalhei. Não estive em situações que pudesse chamar de perigosas. "Safe Area: Gorazde" é claramente uma crônica do lado muçulmano bósnio da guerra. Os sérvios aparecem em situações isoladas. Você "ouviu" a versão deles? Eu passei um bom tempo em Grbavica, uma espécie de bairro em Sarajevo que estava no lado sérvio do front. E acabei conhecendo alguns "sérvios bósnios" - ou nacionalistas sérvios - muito bem. Eu estou planejando um pequeno livro contando a história deles. Você acha que os Estados Unidos tinham de intervir na Bósnia? Por que acha que demoraram tanto para tomar uma posição? Claro que os Estados Unidos tinham de intervir na Bósnia. Eles hesitaram por muito tempo e, para 200 mil pessoas, foi muito tarde. A Europa não fez um bom trabalho ao conduzir a fragmentação da antiga Iugoslávia. A "comunidade internacional" certamente falhou na Bósnia e a paz que impuseram ao país - que foi inteiramente bem-vinda naquele momento só porque as armas estavam silenciosas - não atingiram as verdadeiras razões do conflito. Desde que você voltou para os Estados Unidos, manteve contato com Edin ou Riki ou as "garotas tolas", que são personagens do livro? Sim, claro. Estou em contato regular com Edin e eu visitei Gorazde no final do ano passado. Eu estarei lá novamente em breve. Há muito desemprego na Bósnia, neste momento. Nem Edin nem Riki estão trabalhando atualmente. As "garotas tolas" estão casadas, estudando, ou criando seus filhos. A vida vai em frente, mas um país que ainda está quebrado, dividido e repleto de políticos corruptos não é exatamente um ambiente prazeroso de se viver. Agora que Milosevic está sendo julgado, o que acha que vai acontecer? A prisão de Milosevic pelas autoridades iugoslavas e sua transferência para Haia me deram grande satisfação pessoal. Acho que poderia até chorar considerando que, neste caso, alguma - e eu enfatizo a palavra alguma - justiça possa vir a ser feita. Como você trabalha? Basicamente, trabalho como um jornalista quando estou "em campo": tomando notas, fazendo entrevistas. E eu tiro muitas fotos. Servem como referência visual quando volto para a prancha de desenho. Assim como Art Spiegelman, autor de "Maus", você também se tornou uma referência mundial no campo das histórias em quadrinhos. O trabalho dele influenciou o seu? Sim, Art e eu somos amigos. Ele tem sido um grande divulgador do meu trabalho. Maus é um trabalho seminal nos quadrinhos. Eu não posso dizer que tenha me influenciado diretamente, mas me abriu portas. Ao olhar para o meu trabalho, vários críticos culturais podem usar Maus como padrão ou referência. Ouvi falar que está trabalhando em algo sobre um grupo de blues do Mississippi. Do que se trata exatamente? Gosta desse tipo de música? Sim. Art me pediu uma história de seis páginas sobre o blues moderno do Mississippi para uma revista em que ele trabalhava. Eu adoro blues. Espero fazer um livro sobre isso algum dia. Você sabe que Robert Crumb também gosta de blues. Falando nele, acha que pode ser uma influência? Crumb é uma influência no sentido de que transformou os quadrinhos em uma forma de arte adulta. Definitivamente, eu fui influenciado por seu estilo de desenhar, que é bastante orgânico. Há uma espécie de guerra invisível em curso em países do chamado Terceiro Mundo, como Brasil, Índia ou nações pobres da África. É a guerra do poder econômico contra os pobres que resulta em violência e outras coisas terríveis. Você pensa em trabalhar esses temas no futuro? Esse é um tema muito interessante, mas há outros que também me interessam. Infelizmente, quadrinhos são muito trabalhosos e é preciso ser seletivo ao escolher o que vai se fazer porque não há tempo para realizar tudo. Honestamente, eu gostaria de ter 200 anos para viver.

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