Jodie Foster diretora

A ex-atriz mirim volta à mostra para defender The Beraver

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2011 | 00h00

CANNES

Mel Gibson perdeu uma ótima oportunidade para se explicar perante as plateias do mundo. Nos Estados Unidos, ele vem sendo massacrado pela imprensa por seus problemas domésticos. Preferiu fugir da raia em Cannes, deixando à atriz e diretora Jodie Foster a tarefa de defender The Beraver.

O filme passou ontem fora de concurso. É sobre um homem em crise que se comunica com o mundo por meio de um boneco, uma marionete. Até que ponto um diretor, ou uma diretora, também faz do ator o seu marionete?

Jodie Foster, de volta a Cannes onde, como atriz mirim, participou de Taxi Driver, Motorista de Táxi, de Martin Scorsese - que ganhou a Palma de Ouro de 1975 -, sabe que todo diretor se utiliza dos atores. O que ela espera é que os problemas de Mel Gibson - acusado de agredir física e verbalmente sua ex-mulher russa - não levem os críticos a ignorar o que, para ela, é a excelência do seu trabalho como ator.

Disputa. Voltando à competição, ontem pela manhã passou o filme mais aplaudido pela imprensa, até agora. Le Havre, falado em francês, é um belíssimo trabalho do finlandês Aki Kaurismaki, na linha dos seus êxitos precedentes em Cannes, O Homem sem Passado e Les Lumières du Faubourg. Alguns críticos torceram o nariz e acharam o filme simplório. Ainda deviam estar enlevados com a pretensão da sinfonia filosófica de Terrence Malick em A Árvore da Vida. Aquilo, sim, é filme "de arte".

Há um tom no cinema de Aki Kaurismaki, uma maneira de escolher o ator, de enquadrá-lo em cenários quase sempre minimalistas, com apelo a trilhas que parecem ecos do passado (um velho tango de Gardel, uma canção de Edith Piaf). E os personagens são sempre marginais - aqui é um velho engraxate de quem a companheira diz que é "uma criança grande". Ela é internada, com uma doença grave. Simultaneamente, ele encontra esse garoto africano, perdido no porto de Le Havre. Toma-o sob a sua proteção. Vai fazer de tudo para que ele reencontre a mãe em Londres.

O festival tem tratado com insistência das relações entre adultos e crianças. E também tem se dividido entre filmes que retratam a doença do mundo e outros que, sem desconhecê-la, fazem apostas no otimismo. O filme dos Irmãos Dardenne, Le Gamin au Vélo, que cresce na lembrança do espectador. O de Aki Kaurismaki, cujo simplismo é falso. O filme é muito elaborado, pensado. A simplicidade se adquire. É uma arte que exige depuração. E só muito superficialmente os espectadores, os críticos, poderão dizer que Aki se repete. O cenário, Le Havre, a relação do imigrante já estabelecido com esse outro, que chega - e a de ambos com o policial interpretado por Jean-Pierre Darroussin, ator frequente dos filmes de Robert Guediguian -, tudo isso faz a diferença no novo Kaurismaki. Nem é preciso acrescentar que o repórter do Estado se uniu ao coro dos que aplaudiram.

NA CROISETTE

A atriz e diretora libanesa Nadine Labaki, que estourou nas telas do País com Caramelo, está de volta a Cannes com Et Maintenant, On Va Ou?. O filme não é tão bom quanto o anterior, mas foi uma bela sessão na mostra Um Certain Regard. Fala sobre mulheres que, numa aldeia libanesa, resolvem impedir que os homens, cristãos e muçulmanos, sigam se matando. Muitas cenas são encenadas como musicais.

Houve ontem à noite tributo a Jean-Paul Belmondo. Vários amigos vieram para a homenagem, inclusive Claudia Cardinale, com quem ele fez Cartouche, de Philippe de Broca. Um convidado surpresa estava sendo esperado no início da noite (após o fechamento da edição). Alain Delon?

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