Jocy & Igor

A pianista e compositora brasileira leva ao palco diário sobre encontros com o russo Stravinsky

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Os artistas durante concerto nos anos 60  

 

Em uma Berlim "sinistra e escura", ainda marcada pelos "sinais da guerra", a pianista Jocy de Oliveira, então com 20 anos, janta em um hotel com o marido, o maestro Eleazar de Carvalho. De relance, consegue vislumbrar do outro lado do enorme salão a silhueta do compositor Igor Stravinsky, naquele início de anos 60 já um dos grandes nomes da música internacional. Quer abordá-lo, mas hesita. Ele a ouvirá, lhe dará atenção? Ou receberá seu cumprimento com um olhar complacente e entediado? Resolve conter-se e, na recepção, deixa apenas um bilhete: "Fiquei emocionada em ver tão próximo um dos maiores gênios que a humanidade produziu!"

Na semana passada, em um restaurante do Leblon, Jocy retoma a história. "No dia seguinte, estamos Eleazar, que regeria dali a alguns dias a Filarmônica de Berlim, novamente almoçando no hotel, quando Stravinsky entra com sua mulher e o maestro e amigo Robert Craft. De repente, nos vê, atravessa o grande salão do restaurante e vem nos cumprimentar. Beija a minha mão!", diz, não sem um pingo de vaidade.

O novo encontro se daria três anos mais tarde, em 1963, quando Stravinsky, sua mulher Vera e Robert Craft viriam ao Rio para um concerto no Municipal com a Filarmônica de Londres (em 1966, nova viagem, para apresentação na Igreja da Candelária, com a Sinfônica da Rádio MEC). A lembrança da convivência durante essas turnês - e em concertos na Europa e nos EUA - está fresca na memória de Jocy, mas não corre o risco de se perder no tempo: ela manteve um diário sobre os encontros com Stravinsky. O material, até hoje inédito, e do qual o Estado adianta alguns trechos (abaixo), fará parte de um livro em que Jocy relembra sua relação com grandes compositores do século 20. Antes, porém, ganha adaptação teatral no espetáculo Revisitando Stravinsky, que terá pré-estreia no dia 26 no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, e depois segue para o Rio.

"Na chegada ao Rio, uma redoma foi construída em torno dele, ninguém se aproximava do compositor, sua mulher e Craft, os três sempre juntos", lembra Jocy, que passou a acompanhá-los diariamente, a partir do café da manhã, "regado a champanhe, sempre". "Era incrível o conhecimento deles, sabiam de tudo. Não se impressionaram com a música de escola de samba, pois já haviam tido contato com ritmos africanos em visita ao continente. Mas me perguntou se era possível conhecer a casa de Machado de Assis e, certo dia, pediu que eu arranjasse uma visita a um terreiro de umbanda."

Sabendo do contato da pianista com o compositor, a revista Manchete lhe pedira que o acompanhasse e escrevesse um perfil sobre ele e sua entourage. "Eu aceitei e, por conta disso, comecei o diário durante a visita deles ao Rio. Mas o relato foi ganhando cores pessoais e o compositor e sua mulher se abriram de tal forma para mim que eu acabei guardando esse material e escrevendo um perfil apenas musical para a revista. Só agora é que decidi resgatar esse material."

Teatro musical. O texto chega ao palco em um espetáculo que tem a marca da criação de Jocy que, como pianista, teve importante atuação dedicada à música contemporânea, inclusive estreando obras de autores como o francês Olivier Messiaen. Sua união de palavra e música já foi chamada de ópera, mas ela não gosta do termo, se insere na linha do teatro musical surgido na Alemanha. Em Revisitando Stravinsky, ela articula obras do compositor, criações suas, trechos dos diários e, pela primeira vez em muitos anos, volta ao palco como pianista. "O que procurei fazer foi, em alguns momentos, desconstruir a música dele e reconstruí-la à luz da contemporaneidade. No palco, uma atriz vai interpretar a Jocy dos anos 60; ao seu lado, uma cantora passeia pelas canções dele e minhas também. E eu vou interpretar ao piano algumas obras. Mas é importante uma ressalva: sou eu no palco, sem roteiro, não vou interpretar a mim mesma."

Quase 40 anos após a morte do compositor, Jocy vê a obra de Stravinsky mais "viva" do que a de Arnold Schoenberg, por exemplo. "Ele não se tornou um compositor acadêmico", diz. Do convívio, ela se lembra particularmente do "carisma, da presença, do olhar penetrante, dos gestos particulares." E da dinâmica entre ele, a mulher Vera e de Craft. "É um caso único na história da música, a ligação entre eles era muito especial. Craft era como um filho intelectual dos dois. Lembro de um ensaio na Candelária, quando Stravinsky disse a Craft, que estava regendo, que algo saíra errado. E ele respondeu que não, que acreditava ser melhor daquela maneira. E Stravinsky acatou." Na estreia carioca de Revisitando Stravinsky, a Sinfônica Brasileira interpretaria ao vivo algumas obras do compositor, regida justamente por Craft. Por motivos de saúde, no entanto, ele cancelou a viagem. Em seu lugar, vem o regente Michael Stern.

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