Jocy de Oliveira pouco tem a ver com Stravinsky

Espetáculo de 2 horas sobre relação de ambos caberia em 30 minutos

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2010 | 00h00

"Por favor, avise Bob que o coro está encoberto pela orquestra." Aviso dado, ordem desrespeitada. Bob manda dizer a Igor Stravinsky que ocorre o contrário: a orquestra é que está encoberta demais pelo coro. O lugar é o Teatro Municipal do Rio de Janeiro; o ano, 1963; e a obra é a Missa, que Robert Craft ensaiava. A mensageira era Jocy de Oliveira. Como pesquisas recentes comprovam, Craft, sobretudo na última década, tinha o compositor nas mãos e fazia prevalecer suas ideias.

Emocionada, ela passa fortes emoções em seu Revisitando Stravinsky, leitura musical dramática que estreou quinta, dia 26 de agosto, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, e amanhã será apresentada no Rio, em versão ampliada, com a Sinfônica Brasileira. Em São Paulo, as obras envolvendo orquestra soaram em gravações. Além de registros do próprio Stravinsky regendo e projeção de trechos de vídeos no telão, emocionou a gravação de um trecho de Movements com Jocy ao piano, a Orquestra da Radio France no Champs Elysées e Eleazar de Carvalho na regência.

Aos 74 anos, a pianista e compositora rememora os contatos com aquele que chama de "o gênio musical do século 20", por meio de encenação e músicas cruzadas, de Stravinsky e dela. A atriz Suzana Ribeiro interpreta a jovem Jocy nos anos 60, mulher do maestro Eleazar de Carvalho, no primeiro encontro com o russo, quando seu marido iria reger a Filarmônica de Berlim. E Jocy interpreta a si própria, hoje. Conversa com o público, nos faz compartilhar do momento mágico que foi trabalhar com Stravinsky, quando interpretou seu Capricho para piano e orquestra em Saint-Louis (onde Eleazar era o regente titular) regida pelo compositor.

O Ensemble Jocy de Oliveira (com Peter Schuback no violoncelo, Paulo Passos na clarineta, clarone e saxofone, Aloysio Neves no violão e guitarra, Maria Carolina Cavalcanti na flauta, Vanja Ferreira na harpa e Tomaz Soares no violino) contracena com ela, ora como narradora, ora em hoje raríssimas intervenções ao piano.

No fim, permanece a impressão de que os contatos não foram tantos. Além disso, a obra inteira de Jocy pouco tem a ver, esteticamente falando, com a de Stravinsky. Força-se uma afinidade que não existe. A maioria das anotações do seu diário é banal, supérflua: as insistentes conversas de Igor com ela sobre seus eternos problemas intestinais, o gosto pelo álcool, a visita turística a um terreiro de candomblé no morro carioca, a paquera que ele jogou para cima dela.

Sobram algumas poucas observações de Igor sobre Capricho, que, Jocy insinua, ele regeu mal em Saint-Louis, perdendo pé da execução. Mas aos gênios tudo é perdoado, não é mesmo? O problema é o peso exagerado do supérfluo no espetáculo. São quase duas horas, mas o essencial poderia ter sido dito e passado em não mais do que meia hora.

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