"Joaquim Maria" encerra temporada

Depois de ganhar o prêmio de melhorespetáculo dado pela Associação Paulista de Críticos de Arte,Márcia Milhazes volta a São Paulo para uma curtíssima temporada,e nesta quinta-feira é a última chance para assistir à coreografiaJoaquim Maria, no Teatro São Pedro, às 20h30. O espetáculo é inspirado na vida e obra do escritorMachado de Assis. A relação dança e literatura marca atrajetória artística de Márcia, que já pesquisou a obra deMachado para outros trabalhos. "Não tenho a pretensão de contaruma história. Creio que há uma relação íntima e honesta entre asobras de arte. Fiz uma tradução a partir de um mergulho nouniverso machadiano, de lá tirei inquietações e sensações parapoder elaborar os gestos", diz a coreógrafa. Em cena dois personagens, um homem e uma mulher. Aescritura coreográfica apresenta o trânsito de sentimentos e deemoções, a mulher vista como romântica e cúmplice dos desejosmasculinos, o homem dorme profundamente. Ele desperta após otoque feminino, o que traz à tona memórias e sentimentos. "Meutrabalho é caleidoscópico, repleto de imagens que buscam algoíntimo, que sempre esbarra no imaginário." Um dos pontos altos de Joaquim Maria está na trilhasonora, um resgate da música portuguesa, do período medieval(século 13) até os dias de hoje. Márcia analisa a influênciaibérica no Brasil. Também tentou separar aquilo que é genuínoaos negros, aos índios e aos portugueses. "Nosso País é frutodessa mistura, o próprio Machado pode ser considerado umrepresentante - filho de um português e uma negra. Para executara trilha, pesquisei em arquivos e acervos, por um longo período,o que me rendeu uma coleção com mais de 300 CDs." As músicasfuncionam como uma moldura para o espetáculo que devesurpreender o público. "Muitos ritmos, como alguns próprios doNordeste, têm a sua origem na música portuguesa." A trilha sonora também pode ser compreendida como umtrabalho de resgate da memória portuguesa. "A estréia deJoaquim Maria foi no grande auditório da Fundação CalousteGulbenkian, em Portugal, e causou grande impacto. Quando oespetáculo terminou, um silêncio profundo, que pareceu eterno, edepois a aclamação. Após as apresentações, a curadora me revelouque a coreografia foi um soco na cara dos portugueses, umtrabalho singular realizado por uma brasileira, que devolveu aPortugal suas raízes, esquecidas e massacradas por esse mundoglobalizado." Para completar, o cenário, assinado pela artistaplástica Beatriz Milhazes, composto por uma série de camadas,leva ao palco a feminilidade da coreografia. "Minha irmãtrabalha da seguinte forma: ela acompanha os ensaios, observa edepois elabora algo que interfere no espetáculo, sem ser literal com muita intensidade."Serviço - Joaquim Maria. Amanhã (29), às 20h30. R$ 10,00. TeatroSão Pedro. Rua Barra Funda, 171, São Paulo, tel. 3667-0499

Agencia Estado,

28 de agosto de 2002 | 18h33

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