Joãozinho Trinta seja louvado

N o carnaval carioca de 1959, os Acadêmicos do Salgueiro levavam para a Avenida Presidente Vargas, o sambódromo improvisado de então, um enredo sobre a obra do artista francês Jean Baptiste Debret.

O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h07

Membro da missão artística chegada ao Brasil em 1816, o pintor Debret foi diretor da Academia de Belas Artes, semente da tradicional Escola Nacional de Belas Artes, hoje uma unidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entretanto, muito mais que um mestre, o artista francês, como dizia a letra do samba-enredo salgueirense, um "documentarista do Brasil colonial" e imperial, pois permaneceu por aqui até 1831.

"Obras de vulto e encantos mil legou Debret às nossas belas artes e ao Brasil", como também esclarecia o samba. E essas obras, personificadas pelos próprios sambistas como quadros vivos do desfile, sem alegorias, da escola naquele ano seduziram um outro artista, o grande cenógrafo e professor Fernando Pamplona. Ele assistia à apresentação como membro da comissão julgadora.

O encantamento de Pamplona com o Debret salgueirense acabou por levá-lo a ser o 'carnavalesco' da escola do legendário morro do Salgueiro, espécie de remanescente de quilombo. E, nessa condição, o mestre escreveu seu nome na História carioca, assim como vários de seus discípulos e auxiliares, a começar por Joãozinho Trinta, falecido na última semana.

Mas, ao contrário de Pamplona, que procurava adaptar as condições da escola às suas criações, inclusive buscando fantasiar a maioria afrodescendente com trajes africanos e não da realeza europeia, Trinta era artista delirante, cuja criatividade não conhecia limites.

Foi assim que, nos preparativos do carnaval de 1975 (O Segredo das Minas do Rei Salomão) ele resolveu levar para a avenida uma fantástica tese sobre o descobrimento do Brasil, na Antiguidade pré-cristã, por navegadores fenícios a soldo de Salomão, rei de Israel.

E, para espanto dos compositores salgueirenses, distribuiu entre eles uma sinopse do tema, que começava com a seguinte exortação: "Senhores compositores do Salgueiro: com este enredo entrego uma grande missão. Na inspiração de suas letras e melodias os senhores irão escrever uma nova página na História do Brasil. A mais importante. Com a beleza de suas músicas ficará provado que os primeiros descobridores do Brasil foram os fenícios. Todos ficarão sabendo que as lendárias terras de Ofir eram as terras brasileiras onde estavam as Minas do Rei Salomão (...)".

Aberta a competição, 20 sambas-enredo foram apresentados. E Joãozinho, auxiliado - segundo se dizia - por uma talentosa assessoria musical, fundia dois sambas concorrentes, criava algumas frases novas e obtinha o resultado desejado, da mesma forma que no ano anterior já fizera um "copidesque" do samba que foi para a avenida, como mostrado em nosso livro O Samba, na realidade... (Rio, Ed. Codecri, 1981), infelizmente esgotado.

O caso é que o samba, mesmo 'biônico', ficou ótimo; e a escola ganhou o carnaval. Como ficou ótima, também, em termos visuais, a fusão de várias pequenas alas para formar grupos maiores e mais compactos.

Essas inovações e outras que vieram depois, adotadas em todas as escolas, foram minando as bases. Por exemplo, as alas de compositores, que antes eram organismos autônomos, em alguns casos até com estatuto registrado em cartório, passaram daí em diante a ser meros "departamentos musicais" dentro das megaestruturas que se foram criando. E, no sentido inverso, as alas de 'componentes' (em geral, grupos ligados por laços familiares ou comunitários), agigantadas, passaram a constituir pequenas empresas, integradas por grupos sem outras afinidades que não a do carnaval.

Por tudo isso, o genial artista Joãozinho Trinta merece todos os louvores póstumos que lhe estão sendo prestados neste momento. Foi realmente um criador excepcional. Que seu espírito inquieto agora descanse em Paz!

Mas os efeitos de sua atuação na transformação do desfile das escolas em superespetáculo, pesando forte na Arte do Samba e no espírito associativo outrora existente, também não podem ser esquecidos neste momento. Agora mesmo, segundo Ancelmo Góis, em O Globo, as escolas de samba Portela, Beija-Flor e Vila Isabel, com temas sobre a África, procuram desesperadamente por figurantes negros para seu desfile; e não encontram número suficiente.

O luxo das escolas, então, conseguiu o que parecia impossível: a "cultura negra" sem negros.

Nei

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