João quer o João de volta

Discos do artista permanecem com a EMI em mais um capítulo de uma longa e cansativa batalha

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h11

Bem longe de João Gilberto, em um estúdio do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, o produtor Zuza Homem de Mello apresentava seu programa de auditório Mergulho no Escuro. Zuza recebe discos levados por seus espectadores, os coloca para tocar e faz comentários sobre as canções. E então, eis que lhe cai nas mãos um estranho álbum de João Gilberto. O Amor, O Sorriso e A Flor, lançado no Brasil pela EMI em 1960, vinha com o selo da companhia norte-americana Atlantic. E ao menos uma faixa não era a mesma faixa do original: Outra Vez tem um trecho de voz de João diferente do trecho que está no disco brasileiro. "Quando receberam o disco lá fora, eles só podem ter trocado e usado um take em que João fazia uma segunda voz. É um descaso", diz o pesquisador. O áudio desta versão está no site do programa, em itaucultural.org.br.

O testemunho de Zuza vai ao encontro dos resmungos de João Gilberto. O músico diz que a gravadora EMI não trata de sua obra com o carinho que ela merece. Pior, a agride mesmo quando tenta melhorá-la. "Quando veio a era do CD, eles quiseram colocar um reverb para deixar o Chega de Saudade mais bonito e foi um desastre", conta Zuza. Claudia Faissol, jornalista, produtora e mãe de uma filha de João, de oito anos, fala por ele. "Ao meu ver, a EMI adulterou uma obra de arte no processo de remasterização. Depois deixou esses registros ficarem durante anos fora do mercado. Apesar desta conduta desastrosa, quer ter direito sobre as fitas para que não seja comprovado o dano que causou a esse patrimônio brasileiro." A gravadora foi procurada para rebater as acusações, mas preferiu manter o silêncio.

A nova decisão da Justiça, em manter os masters das três obras seminais de João em poder da gravadora, não elimina a necessidade da perícia técnica pedida pelos advogados do cantor. Marco Mazzola, produtor renomado que já gravou discos de Elis Regina e Raul Seixas, entre dezenas de outros artistas, foi intimado a prestar seus serviços ao Judiciário. "Nem sei como chegaram ao meu nome, mas eu aceitei." Se for mantida a decisão da análise em última instância, Mazzola terá um longo trabalho pela frente. "A qualidade deste material depende muito das condições em que ele foi guardado. A Universal tem takes antigos ótimos até hoje. Já a Warner perdeu boa parte de seu acervo por má conservação." À época gravados em dois canais, os álbuns serão ouvidos, primeiro, com tímpanos de detetive. "É preciso saber se há fungos neles."

Claudia conta que, quando veio a decisão de que a EMI teria de entregar as masters a João, a companhia enviou o material em uma caixa de papelão e fora do horário comercial para que ele não fosse recebido por ninguém. "Depois de ter tomado conhecimento do deferimento da perícia, a EMI - que havia tentado entregar as fitas no dia 8 - nunca mais apareceu com o material", diz a jornalista. A empresa também não quis comentar sobre esse fato.

O argumento que a empresa usa em sua defesa, de que João não teria condições de cuidar tecnicamente de seu material, foi o que garantiu o ganho de causa à EMI. Sobre isso, Claudia fala: "O argumento da EMI é que o próprio João Gilberto - autor da obra e maior interessado em sua preservação - poderia destruir as fitas. Esse argumento é tão ridículo que demonstra que a EMI já destruiu o material e quer colocar a culpa no João Gilberto pela destruição".

Sobre as sensações do próprio João diante de uma batalha judicial sem fim, Claudia diz que "ele fez essa música para o povo, não para as gravadoras. E a maior tristeza da vida dele é ver isso adulterado e fora do mercado".

Historicamente, o valor das quatro obras do artista é inestimável. O álbum Chega de Saudade, de 1959, teve um impacto que Zuza relembra como "difícil de descrever" para quem não viveu a época. "Todo mundo se lembra de quando o ouviu pela primeira vez. Mais do que isso, se lembra de onde estava, o que estava fazendo." Foi ele também, segundo o pesquisador, o responsável por fazer com que vários estudantes de música ou amadores de violões decidissem jogar tudo para o alto e se tornarem artistas. "Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Nana Caymmi, Dori, aquilo foi de uma repercussão fantástica. Quem não tinha decidido seguir carreira decidiu depois de ouvir este disco."

A gravadora, na percepção do estudioso, pode ter cometido dois erros fundamentais na história, desde que resolveu relançar o material de João, em 1987, totalmente remasterizado. "Não haveria briga alguma se eles (a EMI) não tivesse mexido nos originais. Primeiro, eles montaram um disco a seu bel prazer, e um álbum se faz com coerência na sequência das faixas. Depois colocaram o reverb na voz do João. Isso deve ter doído muito em sua alma."

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