João Miguel

Escolheu São Paulo para morar, mas nasceu na Bahia, onde começou sua carreira aos nove anos. Estreou no cinema aos 30 e hoje, aos 40, faz seu 15º filme

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Você só estreou no cinema após tantos anos no teatro, no qual se formou e conquistou vários prêmios. E hoje está no 15º longa. Só neste ano, foram quatro filmes. O cinema te ajuda a entender melhor o brasileiro?

Completamente. Com meu conjunto de filmes é possível contar uma história passando de um tipo para o outro. Comecei em Cinema Aspirinas e Urubus (2005), fazendo um nordestino que vivia no Nordeste. Depois veio Estômago, em que vivi o "nordestino que migrava para o Sudeste".

E este nordestino foi adiante.

Sim. Neste ano, filmei longas que me fizeram viajar pelo País e pelos tipos brasileiros. Primeiro fiz um filme, o Ex-isto, de Cao Guimarães, que discute os limites da lógica e mostra a viagem imaginária de René Descartes ao Brasil. Depois mergulhei no caráter de um caminhoneiro em Sentado à Beira do Caminho, do Breno Silveira. Em seguida, adentrei o universo de Claudio Villas-Boas em Xingu.

Agora faz um nordestino que vive em uma grande cidade do Nordeste em Verônica.

Exato. Verônica conta uma história que falta no cinema brasileiro, dos jovens dos centros urbanos. Não sou o protagonista, mas estou muito feliz de poder filmar com o Marcelo de novo. Ele tem uma forma muito interessante de nos fazer olhar para nós e para nosso caráter.

Viver Cláudio Villas-Boas também não o fez olhar para isso?

Claro. Xingu é um filme grande, que fala da identidade do brasileiro, da questão da terra e do meio ambiente até chegar a uma questão fundamental: quem eram os donos desta terra? Tantos índios foram eliminados de uma forma que diz muito sobre nosso caráter. Isso é muito louco no Brasil. Parece que não queremos olhar para nós e queremos ser algo que não somos. Hoje, ao mesmo tempo que avançando tanto, há muito preconceito e hipocrisia.

Estas questões também te interessam ao escolher um papel?

O que me interessa é inventar maneiras de se fazer arte. De que forma me coloco em cena? Gosto muito de atuar quando a atuação vira um encontro. A experiência com os índios do Xingu foi maravilhosa. Eles têm o rito e o mito incorporados no dia a dia. Nós, incluindo atores, às vezes levamos a vida toda em busca disso.

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