João Luiz Sampaio

Meio-soprano, que abre a

O Estado de S.Paulo

28 de março de 2013 | 02h06

temporada 2013 do Mozarteum, lembra do

choque que foi

conhecer o gênio

Vesselina Kasarova tinha 24 anos quando, ao lado de quatro outros jovens cantores búlgaros, recebeu autorização para deixar seu país pela primeira vez para uma turnê pela França. A viagem não duraria mais de um mês. Mas uma empresária local resolveu gravar um de seus recitais e enviar o registro para Herbert Von Karajan, mito da regência mundial, não importa de que lado do muro estavam suas crenças - ou as daqueles à frente de seu país. Quando se deu conta, ela deixava o grupo e seguia para Salzburgo, onde o maestro comandava um dos maiores festivais do mundo. "Quando eu podia imaginar que estaria ali, fazendo um audição com ele!", ela conta ainda.

De meados dos anos 1980 para cá, a carreira de Vesselina não parou de crescer e ela é hoje uma das principais meios-sopranos do cenário mundial. Já esteve nos principais palcos do mundo e agora faz sua estreia no Brasil, como solista da Camerata Bern, nos concertos de abertura da temporada do Mozarteum Brasileiro, nos dias 2 e 3. Vai interpretar canções e árias de Mozart e Rossini, dois dos pilares de sua carreira, sobre a qual falou na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Estado.

Você vai interpretar peças de Mozart e Rossini em seus recitais no Brasil. Como definiria o papel que esses dois compositores tiveram em sua carreira e no desenvolvimento de sua voz?

Os dois compositores foram muito importantes para mim. Tanto Mozart quanto Rossini são ideais para jovens cantores, embora sejam dos mais exigentes. A música de Rossini é um bálsamo para a voz de uma jovem mezzo-soprano. Já Mozart exige uma técnica excepcional, você percebe imediatamente quando algo (no canto ou na voz) não está em ordem. Rosina de O Barbeiro de Sevilha sempre me deu muita sorte tanto em audições quanto em competições. Fiz minha estreia nesse papel no Teatro de Viena, no Grand Théâtre de Genève, no Royal Opera House Covent Garden e no Met. As pessoas também dizem que minha substituição a Marilyn Horne com o Tancredi de Rossini, no festival de Salzburgo de 1992, foi meu début internacional. Como Trancredi também estreei em Nova York em apresentações de ópera no Carnegie Hall. O Sesto de Clemencia de Tito de Mozart é um dos meus papéis favoritos. De alguma forma, esse papel está no meu sangue. Mozart deve ter tido um relacionamento muito especial com esse papel, que sempre me deu uma música bonita.

Você foi gradualmente seguindo em direção a papéis mais pesados e hoje Mozart e Rossini convivem com Verdi, por exemplo, em sua agenda. Como saber a hora de mudar?

Via de regra, você já tem que ter o dom para papéis mais pesados desde o início, mas o cantor não deveria cantar esse tipo de papel logo de início, quando se é muito jovem, mas dar tempo para que a voz se desenvolva. Eu sempre fui um caso especial até mesmo em termos de repertório, pois desde o começo cantei um espectro muito amplo, incluindo papéis como o Romeo Capuleti e I Montecchi de Bellini e a Charlotte no Werther de Massenet. Hoje eu me sinto absolutamente pronta para o repertório dramático e nos últimos anos tenho cantado Carmen, Dalila, Eboli (Don Carlo) e a Vênus de Tannhäuser.

Nas últimas duas semanas, uma polêmica opôs dois dos principais maestros de ópera da atualidade. Antonio Pappano, do Covent Garden de Londres, disse em uma entrevista que os cantores da atualidade cancelam demais apresentações. Em resposta, Fabio Luisi, do Metropolitan de Nova York disse que são os maestros e diretores os culpados, porque impõem agendas pesadas demais aos artistas. Quem está com a razão?

Eu não acompanhei essa discussão e por isso não tenho certeza se posso avaliar corretamente a posição de Antonio Pappano. Mas posso dizer que quando um cantor está doente ele precisa cancelar a apresentação, caso contrário, ele corre o risco de prejudicar a sua voz. Um músico instrumentalista pode tocar mesmo gripado, para um cantor isso é diferente, seu instrumento é parte de seu corpo. E uma apresentação não pode ser bem-sucedida se o cantor não pode dar 100%. Por isso, não entendo a recriminação de Antonio. Diretores, maestros e dirigentes precisam aceitar que cantores podem adoecer e precisam respeitá-los. Mas, se Antonio se referia a cantores que assumem um número de apresentações muito grande, e não conseguem cumprir, ou que pouco antes do início dos ensaios cancelam, então ele tem razão em sua queixa. Por outro lado, Fabio Luisi, em princípio, tem razão: agendas sobrecarregadas são um perigo para os cantores. Muitas vezes, uma série de apresentações acontece em curto espaço de tempo, somente com um dia de intervalo e isso não é ideal para a voz, especialmente quando se canta um papel dramático. Nesse caso, a melhor das técnicas não vai impedir que o cantor fique afônico.

Quando você soube que seria uma cantora de ópera?

Na verdade, eu queria ser pianista. De qualquer forma, a música seria minha profissão. Durante meu estudo como pianista, acompanhei muitas vezes cantores, e ficava fascinada com a voz como instrumento. É o instrumento mais difícil que existe, pois o temos dentro de nós. Mas também fiquei fascinada com a ópera, em que cantores também têm que ser atores. O desejo de me tornar uma cantora surgiu ao perceber que o canto é um desafio maior que tocar piano, e por que senti que com a voz poderia me expressar musicalmente da melhor forma.

Qual a memória que tem da sua infância na Bulgária? Sua saída do país foi motivada por um convite de Herbert Von Karajan. Como foi o contato com ele?

Comparada com outros países do Leste Europeu, a Bulgária estava economicamente bem. Porém, não tínhamos liberdade e foi uma época difícil para as pessoas. A única coisa que se pode dizer que o governo da época fez de bom foi que estimulou fortemente a cultura e o esporte. Além disso, gozei da vantagem de ter uma formação profunda; tinha aulas de canto todos os dias por uma hora, cinco vezes na semana. No fim dessa formação, estava pronta para o palco. Ninguém me disse que teria um dia uma audição com Karajan. Cheguei a Salzburgo e fui levada para o Grosse Festspielhaus e lá encontrei Karajan e Plácido Domingo, que estavam em meio a um ensaio para Um Baile de Máscaras. Tive um choque, mas fiquei superfeliz de poder trabalhar com este gênio. Karajan queria apresentar a Missa em Si Menor de Bach comigo, com Cecilia Bartoli e Sumi Jo. Infelizmente, ele morreu pouco depois.

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