Daniela Ramiro/Estadão
Daniela Ramiro/Estadão

João Lara Mesquita é eleito para a Academia Paulista de Letras

Jornalista, músico e fotógrafo dedicou carreira à defesa do meio ambiente

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 19h16

O músico, jornalista e fotógrafo João Lara Mesquita foi eleito para a Academia Paulista de Letras na tarde desta quinta-feira, 14. Somando 34 votos, Mesquita se tornou o acadêmico da cadeira de número 17, que era ocupada pelo musicólogo, jornalista e crítico musical Zuza Homem de Mello, morto aos 87 anos em outubro de 2020. A eleição transcorreu em uma cerimônia conduzida por meio de uma sessão virtual entre os integrantes da instituição, com votação eletrônica e a presença de 22 acadêmicos. 

João Lara Mesquita é músico de formação, tendo estudado em Nova York, mas também fez carreira na comunicação. Foi diretor das rádios Eldorado AM e FM e do estúdio Eldorado, pertencentes ao Grupo Estado, entre 1982 e 2003. No entanto, sempre esteve ligado às causas ambientais e trilhou boa parte de sua carreira voltado a defender essas pautas. 

“O João Lara Mesquita, além de ter feito um trabalho extraordinário na rádio Eldorado e ter iniciado a segunda fase do Concurso Eldorado, realmente significa o nome do jornalismo, das artes e da cultura”, afirmou o maestro João Carlos Martins, integrante da APL. “Eu, pessoalmente, posso dizer que o João Lara Mesquita, em momentos difíceis da minha vida, foi uma das pessoas mais importantes que me ajudaram a construir o meu futuro”, acrescentou o músico.

O escritor, integrante tanto da ABL quanto da APL e colunista do Estadão Ignácio Loyola Brandão escreveu o seguinte a respeito da eleição: "Depois que Zuza Homem de Mello morreu, ficou uma espécie de vácuo dentro da Academia. Quem poderia substitui-lo? Quando João Lara se candidatou veio a solução. Quando se fala nele, fala-se em Rádio Eldorado, rádio cidadã. A rádio da boa música, do bom jornalismo. A rádio que faz parte de nosso cotidiano. As Academias estão se abrindo, se ampliando, deixando de ser  instituições fechadas a abrigar vetustos personagens. Impera hoje aqui a diversidade. Bem-vindo, João Lara, a este grupo eclético, onde tudo se discute, se fala, atento a liberdade em tempos nebulosos como este".

O ator e dramaturgo Juca de Oliveira, que também votou pela eleição de João Lara, afirmou: "A Academia Paulista de Letras foi enriquecida com a eleição do grande jornalista e escritor João Lara Mesquita. Radialista, fotógrafo, foi diretor das rádios e estúdio Eldorado. Ambientalista apaixonado, ligado à preservação do meio ambiente, florestas, rios e nossas costas marítimas. Navegador, acumula mais de 60 mil milhas navegadas. Autor de vários documentários para a televisão. Indicado para o prêmio Jabuti em 2008 com o livro O Brasil Visto do Mar Sem Fim".

Mesquita fundou o Núcleo União Pró-Tietê, organização não governamental ligada à SOS Mata Atlântica que se dedica a promover a despoluição do Rio Tietê. Além disso, João Lara foi conselheiro do Greenpeace entre 2001 e 2004 e da Conservation International de 2014 a 2016. Desde 2015, Mesquita edita o site Mar Sem Fim, hospedado no portal do Estadão, no qual cobre assuntos ligados à ciência e ao meio ambiente, especialmente os temas marinhos.

A escritora e integrante da Academia Paulista de Letras Maria Adelaide Amaral justificou seu voto em Mesquita afirmando o seguinte: “Pela longa e incansável militância a favor do meio ambiente, ele merece meu apreço e meu voto”.

Unindo a comunicação e a defesa ambiental com sua paixão pelo mar – Mesquita se diz um capitão amador, tendo navegado mais de 60 mil milhas ao todo –, ele foi responsável por reunir em seu site um acervo de mais de 70 horas de documentários sobre o litoral brasileiro, fruto de uma expedição empreendida por ele de 2005 a 2007, cobrindo toda a costa do País, do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai.

Essa experiência de dois anos resultou também no livro O Brasil Visto do Mar Sem Fim, publicado pela Editora Terceiro Nome e indicado ao prêmio Jabuti na categoria Reportagem, em 2008. A obra conta com cerca de 600 fotos clicadas por João Lara durante a viagem (algumas das quais já foram objeto de exposições), além do texto integral de seu diário de bordo, registrado ao longo da aventura.

João Lara publicou outros livros sobre o oceano. Um deles é Embarcações Típicas da Costa Brasileira (editora Terceiro Nome), que documenta em imagens e texto alguns dos tipos de barcos que navegam pelo litoral do Brasil, muitos dos quais produzidos com mão de obra praticamente artesanal, descendentes de um legado de séculos das navegações indígenas, europeias, africanas e asiáticas. Já Saga do Mar Sem Fim (Editora Escrituras) é talvez sua obra mais intimista, quase uma autobiografia contada a partir da paixão pelo mar. Nesse livro, o jornalista narra o desenvolvimento de sua atração pelas águas desde a infância até suas grandes expedições, incluindo as viagens para a Antártida, que lhe renderam algumas histórias de sobrevivência: em 2012, sua embarcação Mar Sem Fim naufragou na Ilha Rei George, no continente antártico.

Fundada em 1909, a Academia Paulista de Letras, localizada no Largo do Arouche, no centro da capital paulista, tem o objetivo de promover a escrita e a língua portuguesa e disseminar a cultura no Estado de São Paulo. Assim como na Academia Brasileira de Letras, apenas pessoas ligadas diretamente à literatura tomam posse de suas cadeiras. 

A Academia conta com 40 cadeiras e tem, entre os seus integrantes, escritores de peso como Ignácio de Loyola Brandão, Lygia Fagundes Telles e Ruth Rocha, além de personalidades ligadas a outras áreas da cultura e do conhecimento, como o dramaturgo e apresentador Jô Soares, o quadrinista Maurício de Sousa e o arquiteto Ruy Ohtake. / COLABOROU UBIRATAN BRASIL

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