João do Rio e a bailarina: duas semanas de paixão

Troca de cartas com o poeta João de Barros comprova o caso amoroso entre cronista e Isadora Duncan em 1916

JOÃO CARLOS RODRIGUES, ESPECIAL PARA O ESTADO, JOÃO CARLOS RODRIGUES É AUTOR DE JOÃO DO RIO: VIDA, PAIXÃO, OBRA (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA), ENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h17

Lançado de maneira demasiado discreta quando se comemora o ano do Brasil em Portugal, Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias (Funarte, 2013) quase passou despercebido. O que seria uma injustiça com a organizadora Cristiane d'Ávila, cujo trabalho é o melhor a surgir sobre o cronista carioca desde os dois volumes de João do Rio e o Palco, de Niobe Abreu Peixoto. A edição é primorosa, com fac-símiles, notas e ilustrações. E o conteúdo, como de esperar, muito saboroso.

Os interlocutores são ambos portugueses. Com o primeiro, João de Barros, poeta, João do Rio codirigiu, entre 1915 e 1920, a revista Atlantida, "mensário artístico, literário e social", projeto binacional com sedes em Lisboa e no Rio de Janeiro. As cartas para ele formam o núcleo principal do livro. Já Carlos Malheiro Dias era jornalista, exilado no Brasil, onde dirigiu a Revista da Semana, com a qual João do Rio colaborava. As cartas para este são mais lacônicas, pois a intimidade era menor. E o que revela essa correspondência? Trata dos assuntos da revista, que começou com auxílio financeiro dos ministérios do Exterior dos dois países, para depois cair numa grave crise financeira, agravada pela Primeira Guerra Mundial. Em abril de 1919, Atlantida muda de lema, tornando-se então um "órgão do pensamento latino" e incluindo mais um diretor, Graça Aranha, sediado em Paris. Dura mais dois anos. Não foi uma boa revista, era pesada e pouco inventiva, aquém do que se fazia então na imprensa carioca. Mas uma publicação séria e pouco conhecida que merecia ser estudada.

João do Rio foi paladino do relacionamento luso-brasileiro, sonhou até um mercado comum entre os dois países, ideia boicotada nos dois lados do oceano. A correspondência dá a entender que a administração de Atlântida em Portugal foi totalmente desorganizada e caótica, e até as remessas para o Brasil incertas e improvisadas. Entretanto, o conteúdo não é enfadonho. Conversa entre amigos, abrangendo uma década, em que se fala de tudo um pouco, inclusive pequenas fofocas e confissões pessoais. É nesse item que o livro dá uma inesperada contribuição para a biografia do escritor.

Vejamos a visita ao Brasil da bailarina Isadora Duncan em 1916. João do Rio assistira suas exibições em Paris e talvez a conhecesse pessoalmente. Foi seu cicerone no Rio, citado nas memórias dela como um poeta de quem sentia saudades. Circulou o boato de um caso amoroso, hipótese ridicularizada pelos inimigos dele por conta de seu conhecido homossexualismo. Mas o jornalista Carlos Maul afirma que os dois se encontravam abertamente num hotel em Santa Teresa. Segundo Gilberto Amado, Isadora dançou seminua para João do Rio na Cascatinha da Tijuca ao luar. O pianista que a acompanhou na viagem, Maurice Dumesnil, escreveu um livro em que fala de um amante carioca, sem citar nome. Parece ter sido uma relação aberta, pois, segundo Oswald de Andrade, indagado pela bailarina sobre seu homossexualismo, João do Rio teria respondido: "je suis très corrompu". Ela também, sabemos hoje.

A historinha ficou no limite da lenda, sem nenhuma prova. Esta surge agora graças à pesquisa de Cristiane. Numa carta de 10 de setembro de 1916, ele confessa a João de Barros: "Mesmo sem dinheiro, passei os 15 dias mais felizes da minha vida, no êxtase amoroso, no verdadeiro amor, com uma criatura que é gênio, bondade divina - tudo. Essa criatura que me olhou, me desejou, que quase me faz secretário humilde, foi Isadora. Nunca amei assim! A minha vida está dentro do Sol. Meu Deus! Mas é assim o amor? Eu só o senti assim agora, aos 35 anos! Foi transfiguração. E nunca mais poderei amar de tal forma porque não há na terra outra realização da perfeição".

Para completar a surpresa, indícios de ligações com outras mulheres, a bailarina Maria Lina ("quis uma ligação"), a socialite Áurea Porto Carrero ("a terrível senhora que me domina"), as atrizes portuguesas Aura Abranches e Zulmira Ramos. João do Rio, acusado publicamente de pederastia e envolvimento com soldados em terrenos baldios, nas cartas revela-se ainda mais complexo do que supunha nossa vã filosofia.

É uma lástima que tenha se dispersado a correspondência deste autor. Os reveladores trechos do que escreveu para Irineu Marinho e Áurea Porto Carrero, e agora João de Barros, nos fazem torcer para que surjam de alguma gaveta empoeirada também os dirigidos ao escritor Gilberto Amado, ao diplomata Luiz Souza Dantas e à própria Isadora. Quem sabe um dia.

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