João Câmara explora Olinda e Recife

A exposição Duas Cidades, queJoão Câmara inaugura nesta quinta-feira à noite na Pinacoteca do Estado reúne pela primeira vez e em grande estilo o resultado de umprojeto desenvolvido pelo artista ao longo de 15 anos em tornodas cidades de Recife e Olinda. "Irmãs antípodas", que têm umaforte conotação simbólica e afetiva para o autor, as duas servemcomo uma espécie de trampolim, de porta de entrada, para umainvestigação pictórica que nada tem de pitoresca ou alegórica. Trata-se mais de um mergulho íntimo, sentimental, quenasceu como uma espécie de homenagem ao pai de Câmara e acaboutransformando-se em sua última grande investigação, que encerraa trilogia que pontuou toda sua carreira. Duas Cidades temseu ponto de origem no grande painel que o pintor realizou em1987, como uma espécie de pintura votiva, quando seu pai morreu.Nesse trabalho - que infelizmente não está presente na mostra -e no álbum de gravuras feito logo em seguida, estão as sementesde tudo o que viria a ser desenvolvido posteriormente. Lá estãonão apenas os ícones (como o zepelim, a arquitetura, o chapéudos homens, a água dos rios Capibaribe e Beberibe...), mas tambémo caráter universalizável dessa colagem de imagens, idéias esensações, que evocam no espectador um sentimento nostálgico eintangível. "É como se o trabalho deixasse de lado o retratopaisagístico e se tornasse uma espécie de percurso comentado",define Câmara. Ocupando todo o espaço climatizado da Pinacoteca, amostra contrapõe pinturas e objetos de maneira a evocar asvárias formas encontradas pelo artista de abordar o tema. Numprimeiro momento, o visitante é apresentado ao universo depesquisa definido pelo pintor, por meio de uma seleção dedesenhos mais intimistas, esquemáticos. Aqui e ali vêem-se osperfis geográficos e arquitetônicos das duas cidades, cada umacom seus encantos, que deixam claro desde o início as diferençasentre elas. Enquanto Olinda surge vertical, encastelada, Recife éuma cidade aberta, que espalha no plano e se abre para o mar.Suas vocações de porto e acrópole permitem que a pintura deCâmara se desdobre numa série de oposições e sínteses. Logo naentrada dessa primeira sala, vê-se uma obra que funciona comouma síntese desse movimento pendular. Trata-se do trípticoTopografias, formado por duas paisagens redondas das duascidades, unidas por um pequeno quadro retratando um avião DC3 -o primeiro em que o pintor viajou. Juntos, esses trabalhosformam óculos, através de cujas lentes como que se desdobratoda a mostra. Outra oposição radical verificada na exposição - quedepois de São Paulo segue para o Museu Nacional de Belas Artes,no Rio - é aquela que separa o olhar do alto daquele voltadopara o chão, para o nível da água. O zepelim, representado numgrande painel logo no início da mostra, é explorado pelo artistacomo uma forma de criar um panorama inverossímil do Recife, umadas escalas de parada do dirigível. Curiosamente, associada aesse trabalho está a imagem de James Joyce, outra homenagem aopai de Câmara, grande admirador do escritor. Domínio das águas - Mas pouco a pouco as águas passam adominar as obras (fato proposital, decorrente da montagemorganizada por critérios mais temáticos que cronológicos). Nagrande tela Leis Escritas n´Água, Câmara passa a usar as águasdo Recife como espelho de sua arquitetura, subvertendo mais umavez o ponto de vista tradicional. Uma das mais belas obras damostra, O Rio, vai mais além. Nesse grande painel de 13 metrosde comprimento por 2 de altura, Câmara pinta o Rio Capibaribe,com suas tralhas e diferentes tons de azul. Cronista de grande talento, Câmara chegou a descreverparte do processo de criação da obra em texto publicadooriginalmente há dois anos, na coluna que manteve no Jornal daTarde, e que republica agora no catálogo de mais de 100páginas que também será lançado na quinta-feira. "Para fazê-lodesenvolto, livre da minudência feminina que as tintazinhas detubo processam, resolvi usar tinta industrial, escolhendo coresque resistem ao ataque de luz e que - espero - agüentem até odia em que o rio volte a ser azul como esta coisa pretensiosaque vai sendo pintada com trinchas largas", descreveu. Com umpreciosismo técnico bastante apurado, Câmara ainda não temcerteza se o quadro está concluído. Talvez essa seja a tela mais alegre da exposição, já quesuas paisagens não têm a tropicalidade normalmente associada aessa região do País nem a precisão histórica e geográfica que sepoderia esperar de um trabalho tão fortemente ancorado narealidade física. São tons baixos, discretos. A figura humanafoi retirada das telas e colocada em pedestais, como ícones semvida. Algumas são retiradas de anúncios, como a mulher saída deum rótulo de cachaça, que tem a mesma importância de uma garopa(peixe), também de origem publicitária. Outras estão coladas aocotidiano das cidades-tema, como o Filho de São Martinho, imagemde um garoto pintada sobre um carrinho improvisado, desses quetransportam deficientes. Esse menino, que se queimou todo numengenho de açúcar, mendigava na Ponte Nova, no Recife. Outra figura central na exposição, situada no local maiscentral da exposição, é o próprio Câmara, retratado de frente ede costas. "É esse auto-retrato que dá escala pessoal à série,é como uma intromissão do autor, visto como uma testemunhareal", afirma o artista, lembrando que mestres como Velázquez eGoya procederam da mesma maneira. Aliás, essa é apenas uma das várias remissões à históriada arte (incluída aí não só a pintura, mas também a literatura)que Câmara faz ao longo desta exposição. Aqui e ali encontram-sereferências a De Chirico, Velázquez, Vermeer... Uma das obras,que mostra um rosto de marinheiro sobre um pedestal no qual sevê um navio naufragando, chama-se Patina Medusa, numa duplacitação que remete ao mesmo tempo ao navio de Lorde Jim, deConrad, e à tela O Naufrágio do Medusa, de Géricault. Apesar de se considerar sobretudo um pintor e de seforçar a pintar todos os grandes gêneros da arte, Câmara pareceter se distanciado propositalmente da figura humana nestaexposição. "Ela desvia os planos de interesse, remete ao fatonarrativo", diz. Isso talvez também se deva ao fato de a figurahumana ter ocupado um papel central nas fases anteriores dopintor. Trilogia - Na primeira das séries de sua trilogia,composta por 10 pinturas e 100 gravuras, o artista retratoucenas da vida brasileira, tratou "de Vargas e daquelacanalhada". Essa investigação da vida pública nacional duroudois anos e encerrou-se em 1976, quando Câmara resolveu deixar oespaço público para explorar a relação íntima entre homens emulheres, pintando dez casos de amor. Nos dois casos, há umaforte presença do discurso narrativo, abandonado agora em prolde algo menos dramático. Não só o tema, mas o aspecto formal daobra de Câmara parece ter se suavizado ao longo desses mais de40 anos de carreira. "É a velhice. Com ela você vai ficandomenos mal-educado, menos contestador", brinca o pintor. Convémlembrar que, paralelamente à trilogia que marca sua trajetória,ele nunca deixou de desenvolver o que chama de "pinturasavulsas", que são como contos, pequenas novelas que tocam temasvariados. Ele também parece cada vez menos interessado no caráterespetacular da pintura ou na necessidade de seguir um programade ação. "A pintura complica, mais do que explica", diz Câmara afirmando que para ele a arte deve ser vista como um momento derevelação quase religiosa. "Trata-se de um processo daincerteza, do erro. E portanto dos sonhos", resume.Serviço - João Câmara. De terça a domingo, das 10 às 17 horas.Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, centro de São Paulo, tel,229-9844. Até 30/6. Abertura quinta-feira, às 19 horas, paraconvidados.

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