João Antônio: um ritmo próximo do falar

Inovação da linguagem e achados temáticos mantêm a atualidade do escritor

ANTONIO ARNONI PRADO,

26 Outubro 2012 | 19h00

Num momento em que a obra e a personalidade de João Antônio pareciam de algum modo apagar-se no horizonte, esta cuidada edição de seus Contos Reunidos não deixa de fazer justiça ao que representou o alento inovador de sua obra no recente panorama da prosa brasileira. Afinal, quase 50 anos após seu aparecimento, ainda que a nota inventiva dos tempos de estreia emergisse de uma São Paulo romântica e fortemente estilizada, os silêncios do Vale do Anhangabaú, os espaços vazios da Praça Julio Mesquita, do Paissandu e do Correio, tão caros à figuração noturna de seus heróis, não passam hoje de moldura quase inverossímil de um mundo perdido que mal se articula com a realidade de seus antigos malandros, dispersos entre o Moinho Velho e Presidente Altino, Vila Anastácio e o Piqueri, sem esquecer Osasco, Perus e Cruz das Almas.

É verdade que a inovação da linguagem e os achados temáticos não deixam de sugerir a um leitor atual de Malagueta, Perus e Bacanaço, por exemplo, o que foi a impressão de novidade que sustentou o encanto do livro, quando nos revelou, em 1963, o colorido de um submundo cuja verdade poucos souberam, como João Antônio, transformar em palavras.

Daí talvez o fulgor da chama que jamais se extingue. Como notou Antonio Candido, o dado forte nesse contexto foi a habilidade de João Antônio para inventar linguagens "a partir do que se fala no dia a dia", sem recorrer à estratégia convencional do discurso direto encoberto. Ou seja, longe de escrever literalmente como se fala, o narrador João Antônio como que acelerava a oitiva, fazendo a transfiguração estética do que ouvia e registrava, do que anotava e transcrevia, inventando pelo inesperado dos ritmos, pelo artifício de registros jamais concebidos na figuração literária daquele universo degradado sobre o qual se debruçava atraído pelo "jogo duro da vida".

É na retomada dessa configuração que se concentra a força de Contos Reunidos. Distribuído em nove seções, tem apresentação de Rodrigo Lacerda, que acrescenta ao volume, à fortuna crítica e, em particular, ao retrato pessoal de João Antônio, informações preciosas. Isto sem contar a inclusão de um capítulo especial, Dois Dispersos e Um Inédito, contendo os relatos Bolo na Garganta e A Um Palmo Acima dos Joelhos, entremeados, pela ordem, aos volumes de Malagueta, Perus e Bacanaço, Leão de Chácara, Dedo-Duro, Abraçado ao Meu Rancor, Um Herói Sem Paradeiro, além do capítulo João Antônio por Ele Mesmo, a que se seguem alguns dos textos mais representativos da Fortuna Crítica e a relação das Obras do Autor.

Os dois dispersos (Um Preso e Bolo na Garganta) têm em comum uma convergência estilística que nos leva ao João Antônio da fase anterior à da produção inovadora, que se afirma a partir dos contos de Malagueta, Perus e Bacanaço, seu primeiro livro. São dois textos da década de 50, o primeiro de fevereiro de 1954 e o segundo (só publicado em 1965) de dezembro de 1956, conforme registra o datiloscrito depositado no arquivos do autor na Unesp de Assis, como indica o apresentador do volume.

São relatos de um autor ainda envisgado em muitos dos compassos sintáticos do Graciliano Ramos de Caetés (uma de suas confessadas influências), com um ou outro corte para a síntese livre em direção à oralidade mais tosca e ao discurso enviesado do remoque. No primeiro, um preso medita sobre a monotonia asfixiante da cadeia através dos reflexos momentâneos que, por entre as grades da janela, o levam a "adivinhar" a palpitação da vida lá fora: "Que tristeza! Paulo dorme. O vigia dormita. O corredor é um deserto. E esta chuva, esse vento (...) E passarei aqui mais de dez anos a comer boia magra, fria, em promiscuidade (...) enjaulado, feito bicho, me acabo neste buraco!".

No segundo, mais solto, o autor debulha a insipidez dos flagrantes do universo infantil, centrado na impaciência de um menino dividido entre os deveres da casa, a convivência com a família e os sonhos como os de qualquer criança. Já no texto inédito, um relato autobiográfico narrado a partir de um "diálogo" entre o narrador e a cadela Mariuska, remergulhamos em alguns temas bastante explorados no conjunto da obra de João Antônio, tais como as origens humildes da família, a vida escolar e os primeiros amores; a população marginalizada dos morros, os costumes do bairro, a convivência com boêmios, malandros e cantadores (tipos como seu Pedro Macagi, Totoniel Olho Grande e Golão Pururuca); isto sem mencionar as "cabritadas", onde se "podia escorregar, destrambelhar para malsucedida, armando brigas, ingresias, desfeitas, mexidas, confusões", fuás onde podia "dar bode num forrobodó de cuia" -(...) tudo para culminar na lembrança da "menina ungaresa", Aldônia, por cujo amor o narrador menino ficou marcado para o resto da vida, no mais puro dos sentimentos que arredondam o texto. Acrescente-se que, para o leitor de Contos Reunidos, um dos fatores preponderantes é a apresentação de Rodrigo Lacerda, cheia de subsídios valiosos tanto no plano da interpretação literária, como no da contextualização biográfica e intelectual do escritor, ao elucidar as diferentes faces de sua trajetória, muitas vezes truncada, entre a literatura, o jornalismo e a publicidade.

Pesquisador dos mais atentos ao significado da prosa de João Antônio, Rodrigo garante ao leitor a amarração indispensável à fruição do conjunto, que ele articula não só ao documentar fatos e episódios pessoais na afirmação do escritor, como também ao se deter nas diferentes etapas de seu projeto literário, que ele investiga na bibliografia da crítica e dos periódicos, na ressonância de suas influências de época e da formação autodidata, passando pela correspondência e pelos registros de leitura, pelo depoimento dos amigos e conhecidos, pela avaliação do papel do jornalismo moderno na sua escrita, sem esquecer o cuidado para decifrar, de um lado, as transformações do escritor que surgia e a radiografia dos textos e das sucessivas edições; de outro, o rico filão das confissões e depoimentos pessoais em que João Antônio reflete e explica seu método de trabalho.

São esses elementos que dão ao leitor a vantagem de conhecer os "segredos" do autor em face da obra e da época, como no caso de Leão de Chácara, para cuja redação ele confessa ter conversado muito, sobretudo com um amigo garçom, escolado na convivência com os personagens da noite: "Foi conversando com ele, observando outros leões de chácara (...) conversando muito com eles" que escreveu o livro. O mesmo vale para a contextualização da decadência, em que a redemocratização e as transformações econômicas soterravam aquele Brasil acanhado de seus antigos malandros, minando em João Antônio a capacidade de reagir e de escapar ao rótulo de "escritor dos marginais", mas sem conseguir desvencilhar-se dos excessos estilísticos que já começavam a sufocar seus textos com uma retórica em via de esgotamento.

É certo que nada disso se sobrepõe ao rico universo das virtudes elaboradas pela prosa de João Antônio, agora reeditada. Virtudes, aliás, que lhe valeram o reconhecimento de três prêmios literários e a inclusão de seu nome numa linhagem de narradores urbanos que vinham de Alcântara Machado, de Oswald e do próprio Mário de Andrade. O ritmo ajustado à fala, a frase boleando os tipos, a expressão definindo um jeito único de ser frente à existência possível. O estilo de João Antônio confunde-se com a efígie lírica dos excluídos e sempre se imporá como força positiva na figuração da moral sem entraves que empurra os miseráveis para o centro do jogo, convertendo o vício e a catimba em um modo de afirmação da própria dignidade.

"Vai pras cabeças! Belisca esse homem, Meninão!" - eis o grito do malandro Vitorino para o Meninão do Caixote, que não se fazia de rogado: beliscava mesmo, "mordia, furtava, tomava, entortava, quebrava" o adversário, confirmando no tempo - quem sabe na própria vida - as velhas estripulias das parceiradas e "marmelos" com que o menino Perus, o velho Malagueta e o descarado Bacanaço depenavam os seus adversários na velha São Paulo dos anos 50.

ANTONIO ARNONI PRADO É PROFESSOR DE LITERATURA NA UNICAMP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE TRINCHEIRA, PALCO E LETRAS (COSAC NAIFY)

 

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