MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
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Cristina Padiglione
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Jô Soares fala sobre 'Histeria', peça que estreia nesta sexta, sob sua direção

Humorista, escritor e diretor fala sobre o espetáculo, um encontro entre Freud e Dalí, comenta sobre polarização política e o último ano de seu programa na Globo

Entrevista com

Jô Soares

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

04 de maio de 2016 | 06h00

Foi entre 2003 e 2004, em Paris, que Jô Soares deu de cara com Histeria, peça do britânico Terry Johnson, então dirigida por John Malkovich. Logo, providenciou a compra dos direitos, traduziu o texto e agora coloca o título em cena, com direção sua. A estreia será nesta sexta, 6, no Tuca, em São Paulo, onde fica em cartaz até 31 de julho. Escrita em 1993, a comédia promove um encontro entre a psicanálise e o surrealismo, quando Sigmund Freud é visitado em seu consultório, em Londres, em 1938, pelo pintor Salvador Dalí. No elenco, estão Pedro Paulo Rangel, Cássio Scapin, Érica Montanheiro e Milton Levy.
Àquela altura, Freud, já perto da morte, acabara de escapar da Europa nazista. Perturbado, é visto em situações comicamente atrapalhadas, para o encanto de Dalí, que enxerga no pai da psicanálise alguém capaz de vivenciar o que o pintor só vê em sonhos. É no ambiente desse enredo que o Estado foi ao encontro de Jô, no Tuca, onde ele vem ensaiando há cinco semanas. Falamos de Freud e Dalí, mas também da histeria fora dos palcos, assunto que tem ocupado parte do repertório do apresentador na última temporada de seu talk-show na Globo.
Por que colocar a peça em cena agora?
Vi a peça em 2003 ou 2004, eu estava com a Bete Coelho e com a Mika Lins. Mas houve uma série de fatores independentes da vontade de ser agora ou depois. A gente precisava saber como adquirir os direitos. Liguei pra minha agente literária, que representa os meus livros nos Estados Unidos e na Europa, e perguntei: ‘Você sabe quem representa os direitos de um autor chamado Terry Johnson?’. E ela falou: ‘Claro, é a fulana’. Aí, foi muito rápido. Já tinha traduzido a peça, era uma coisa que eu gostava muito e falei: num momento ou outro eu vou encenar. Mas não tem uma razão para ser agora, a não ser histeria coletiva que a gente vê em algumas manifestações de algumas pessoas, porque tem gente que não pode mais sair na rua que é agredido.
Você tem sido agredido?
Não, só fui agredido naquela vez que picharam na rua, na frente do meu prédio, ‘morra Jô Soares’. Como eu não morri, não concordei, não houve mais nada. E tive tantas manifestações de apoio, que fiquei comovido. Como agora, que eu falei do Chico (Buarque). Quer queira ou não queira, independe de qualquer posição política, o Chico Buarque é um patrimônio deste país. Chico Buarque de Holanda, tanto na área intelectual como da música, na área da literatura e da música, é um patrimônio. E a gente tem tão poucos, que eu fico revoltado quando fazem esse tipo de coisa. Uma pessoa não pode mais ir jantar com os amigos? Aí, ficam falando bobagem, ficam falando da Lei Rouanet sem saber o que é.
Você foi acusado de não apedrejar Chico e Dilma por ter recebido apoio da Rouanet, não?
Já fui. Nessa peça aqui, também. O Rodrigo (Velloni, que tem produzido suas peças, inclusive ‘Histeria’) sabe. Depois que entrevistei a presidente da República, como se fosse um crime entrevistar a presidente da República... Eu entrevistarei sempre presidentes da minha República, do meu país, como entrevistei o Fernando Henrique numa época também que era difícil para ele, da reeleição. Vou sempre entrevistar presidente da República, seja qual for, desde que seja numa democracia. Nessa época, depois da entrevista da Dilma, falaram que eu tinha recebido R$ 1,9 milhão pra montar Troile e Cressida. Mostram um fac-símile, de um pedido de licença para captar recursos, um pedido do produtor em que aparece meu nome como diretor e os nomes dos atores como provável elenco, é uma praxe para conseguir captar, mas nunca vi um tostão de nada captado por lei Rouanet.

Apontado pela equipe de Histeria como um diretor seguro e muito rápido nas marcações definidas para os atores em uma montagem teatral, Jô Soares, 78 anos, 1,67m de altura, 95 kg e algum desconforto na coluna, sabe que o expediente de gravar um programa diário e dirigir um espetáculo ao mesmo tempo é puxado. E daí? “Eu adoro isso”, fala. 
Como seriam tratados Freud e Dalí se eles estivessem aqui hoje, com opiniões capazes de despertar essa polarização política?
No clima em que estamos, acho que eles sofreriam bullying de um lado ou de outro. Eu tenho visto, e não perco, as sessões da TV Senado. Outro dia, teve um senador que, infelizmente, não tomei nota do nome, uma das pessoas mais chatas da República. Nunca vi mais chato, inclusive ele não fazia vírgula. Pessoa que não faz vírgula é uma coisa insuportável, não tem como cortar.
Cabe na adaptação alguma referência ao local ou ao tempo que a gente está?
Não. Mesmo sendo fiel ao original, acontecem algumas coisas que realmente têm referência e as pessoas pensam que foram incluídas propositadamente. Tinha uma cena engraçada no Atreva-se, em que ela dizia: “Cheguei atrasada por causa da greve do metrô”, mas está no texto, não tinha nada a ver com a greve que estava acontecendo na época e as pessoas achavam engraçada, a cena.
E agora? Algo parecido?
Não lembro, acho que tem um ou dois momentos que acontece isso, mas não me preocupo. E fico puto, não com caco (improviso do ator). O caco é bem-vindo quando é a propósito, mas quando é só pra fazer uma ligação com a realidade... Entrar o Freud e falar ‘meu Deus, está pior que o impeachment’, isso não. Realmente, fazer gracinha, não há necessidade. A situação (real) está muito mais para o surrealismo do Dalí do que para a psicanálise do Freud.
Você mencionou a TV Senado. É o que mais tem visto na TV?
É. A gente tem obrigação de saber quem está nos representando, nos dois lados. A gente escuta muita inconsistência, ao mesmo tempo, vê alguns depoimentos surpreendentes, e é a única maneira de ter contato com nossos representantes.
Você já se manifestou se é contra ou a favor do impeachment?
Não, e nem posso. Faço um programa que emite opiniões.
Na época do Collor, o programa também entrou com força nesse contexto político...
É, mas as pessoas se esquecem de que o programa sempre foi uma tribuna livre. Então, eu sempre convidava participantes dos dois lados, do lado do Collor e do lado do Ulysses (Guimarães), vamos dizer. Só que do lado do Collor, poucas pessoas aceitavam vir. E eu, sempre fazendo tudo com humor, é a minha arma.
Mas na época você não sofreu essa pressão. A polarização hoje é realmente maior ou isso é também efeito das redes sociais?
Não tinha essa polarização. Na época do Collor, houve realmente uma unanimidade, era um outro tipo de situação. O que eu dizia na época e sempre digo é que a minha posição política é de anarquista. Não anarquista de jogar bomba, mas de estar numa atitude de crítica ao governo, por isso é que consigo entrevistar pessoas dos dois lados, porque o programa é uma tribuna aberta.
Sobre o fim do programa na Globo, o que fará em 2017?
Não faço a menor ideia. Eu sou do dia a dia, não sei ainda o que vou fazer, nem sei se vou fazer alguma coisa, ou se vou tirar uns cinco anos sabáticos (risos). O meu ano sabático dura um dia, geralmente. 
O Leandro Hassum, que agora está magro, faria uma releitura do Viva o Gordo, seu antigo programa. Isso passa por você?
O que houve foi um projeto, autorizado, inclusive por mim, de ele fazer um filme e fazer o Capitão Gay, que eu acharia estupendo. Só que agora é difícil, se bem que eu acho que ele pode fazer qualquer papel. Porque ele não é gordo, ele é ator, é um comediante espetacular
Mas há essa cobrança com os gordos engraçados, não?
Agora estou com 98 kg. Mas teve uma época que cheguei a pesar 160 kg e perdi 80. Aí, as pessoas estranharam muito e diziam ‘ah, perdeu a graça’. E eu dizia: ‘Olha, se gordura fosse engraçado, não haveria necessidade de humorista. Você compraria 1 kg de toucinho, pendurava na sala e ria o ano inteiro com aquilo. Passava na frente da linguiça e hahahaha’.
Temos também um novo livro a caminho, não?
Tem, mas houve um momento em que o livro parou porque era uma sátira ao momento político, que mudou radicalmente. Tenho que parar para ver como é que eu vou fazer agora.
Fala-se na junção entre os ministérios da Educação e da Cultura, em um possível governo Temer. O que pensa sobre isso?
Não sei. Tudo depende de como será desenvolvido, não entendo disso. Eu só acho que a cultura devia ser tratada com mais educação. 

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