Jó e Malick, uma boa parceria

Os homens aprenderam que pouco podem esperar da justiça terrena e buscaram consolo na justiça divina, acreditando que, no outro mundo, ela punirá os maus, e premiará os bons. Mas a credibilidade neste consolo desde sempre ficou comprometida por uma constrangedora constatação. Inexplicavelmente a justiça divina não se manifesta no mundo dos vivos. De forma indiscriminada, bons e maus estão sujeitos aos mesmos e terríveis sofrimentos. Seria Deus injusto, indiferente ao padecimento de seus fiéis?

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Essa questão, que de longa data angustia a humanidade, encontrou uma bela forma de expressão no Livro de Jó. Vendo que Jó era um homem bom e cumpridor de seus deveres, Satã desafia a Deus dizendo que Jó assim se comporta por ser feliz. Se desgraças o acometessem, seguramente deixaria de seguir o caminho reto e se rebelaria contra seu Criador. Deus aceita o desafio de Satã e o autoriza a acabar com a felicidade de Jó, permitindo que Satã destrua seus bens e mate seus filhos, além de cobrir-lhe o corpo com pústulas. Jó assiste perplexo ao infortúnio que sobre ele se abate, sem se queixar de sua triste sina. Três amigos o visitam e argumentam que ele teria necessariamente ofendido a Deus para receber tantos castigos, caso contrário poder-se-ia duvidar da própria justiça divina. Mas Jó insiste que nada fez para merecer tantas desgraças.

Nesse momento, Deus se faz presente e repreende a ousadia dos que questionam sua justiça. Sem dar uma justificativa para Jó, faz uma longa e belíssima descrição de suas tarefas como criador do universo, na qual exibe sua onipotência e onisciência, atributos inacessíveis aos homens, pobres e insignificantes criaturas. Em seguida restaura os bens de Jó, devolvendo-lhe a saúde e lhe dando novos filhos.

O Livro de Jó é um dos textos mais instigantes da Bíblia, pois mostra a dúvida quanto à bondade de Deus, descrito como distante e indiferente ao destino humano, mais preocupado em reafirmar sua vaidade e poder, fazendo da vida de um homem justo um joguete em sua aposta com Satã.

A Árvore da Vida, o filme de Terrence Malick, pode ser descrito como uma versão para os dias de hoje do Livro de Jó.

Frente à morte de um filho, a mãe, o pai e o irmão fazem como Jó - se voltam para Deus e exigem uma explicação. Como podem receber tamanha punição se agiam dentro dos preceitos? A mãe aprendera que havia a natureza e a graça. Acreditara e apostara na graça, como fica agora? Malick responde mostrando a grandiosidade do universo, a multiplicidade das formas de vida, a complexidade e a beleza do macrocosmo, a delicadeza do microcosmo, a pujança da natureza e seu grandioso descaso frente ao destino humano, o misterioso funcionamento dessa magnífica engrenagem.

Em assim fazendo, Malick segue de perto o Livro de Jó, quando Deus, ao invés de responder às perguntas que lhe são feitas, exibe seu poder criador, sua obra, o Universo. Aliás, Malick abre seu filme com a citação deste trecho do Livro de Jó. (Caso o leitor não conheça este texto, vale a pena lê-lo; basta colocar "Jó, 38" no Google, é pena que não tenhamos uma tradução canônica da Bíblia, como ocorre com a do Rei James, um dos pilares da literatura inglesa).

A questão posta é - se há um silêncio de Deus frente às súplicas pessoais de seus servos, não seria o funcionamento do universo, cuja magnitude nossa pequenez não permite entender, a evidência de sua presença e atuação?

Na ignorância, a humanidade é obrigada a seguir seu caminho. Ela aqui está muito bem representada pela família O"Brien, situada nos Estados Unidos dos anos 50, portando traços autobiográficos de Malick. O pai (a "natureza") luta pela sobrevivência, educando com dureza os filhos. A mãe (a "graça") amorosa e sonhadora, elemento de coesão da família. Ambos tentando passar para seus rebentos os valores em que acreditam, julgando com isso prepará-los para a vida, inadvertidamente marcando-os para sempre com suas frustrações e desejos nunca realizados. Como toda família, ela está irremediavelmente estruturada em torno do drama edipiano, com toda sua intensa gama de amores incestuosos, ódios assassinos e rivalidades fraternas. A isso se acrescenta a morte de um filho e a necessidade de elaborar o luto e as culpas.

Malick contrapõe a memória humana à incomensurabilidade do tempo cósmico, que mesmo em nosso planeta presenciou o aparecimento e a extinção de tantas espécies de vida. É a memória que nos dá a dimensão do tempo existencial, onde o já vivido permanece, acompanhando-nos em nossa jornada rumo ao futuro e ao fim.

É esse o trajeto realizado pelo filho Jack, que parece taciturno em sua vida adulta, como que impossibilitado de usufruir suas conquistas (bela mulher e casa). Ao ser cobrado pelo pai, recupera a lembrança do irmão morto e com ela todas as recordações de sua infância. É perceptível sua relutância em ultrapassar o portal que dá acesso ao passado, é preciso coragem para entrar ali. Vencendo a relutância, Jack prossegue, encontrando suas lembranças. Ao reintegrar suas recordações e tomar posse de sua memória, Jack se reencontra consigo mesmo e recupera a alegria de viver, como vemos nas cenas seguintes, nas quais aparece alegre e sorridente em meio aos edifícios de vidro onde trabalha. De certa forma, esta poderia ser a descrição de um processo psicanalítico - a recuperação do passado traumático reprimido, a integração das ideias e afetos que estavam cindidos ou negados.

A Árvore da Vida é uma reflexão filosófica sobre a existência humana e seus impasses. Apesar de se apoiar na religiosidade ao reeditar o questionamento de Jó, Malick parece ter uma perspectiva mais aberta. Para ele, a solução para a angústia existencial não está tanto na resposta divina e sim, psicanaliticamente, na integração do passado reprimido. Mas esta é uma solução parcial que não elimina o grande enigma da vida. Também insuficiente lhe parece a resposta religiosa convencional, pois ela pretende resolver de forma apressada o extraordinário mistério no qual estamos imersos, ao postular um deus antropomórfico, pateticamente construído à nossa imagem e semelhança. Malick rejeita esta facilidade barata e amplia o mistério. O filme se inicia e termina com uma bruxuleante luz. Que será essa força desconhecida que mantém o universo em andamento?

Com a beleza estonteante de suas fluidas imagens e a intensidade de sua trilha sonora, A Árvore da Vida atinge em cheio a emoção do espectador e o mantém comovido até o fim.

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