Paula Kossatz/Divulgação
Paula Kossatz/Divulgação

Jô Bilac analisa conflitos de uma crítica de arte

'Caixa de Areia', que traz Taís Araújo no elenco, é mais uma obra do autor sobre a criação artística

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2013 | 20h35

Caixa de Areia, que chega a São Paulo após cumprir temporada no Rio, é o 14.º texto de Jô Bilac. Com apenas 29 anos, o carioca tem se destacado entre os novos nomes da dramaturgia nacional. Recebeu prêmios, boa acolhida dos críticos, traduções em diversos países e, mais do que isso, tornou-se o autor preferido de intérpretes de certa projeção na televisão à procura de obras contemporâneas.

Lucélia Santos foi atrás de uma criação sua. Angela Vieira protagonizou outra. Maria Maya não ficou só no palco e resolveu produzir a encenação. O expediente se repete agora com Taís Araújo - produtora e atriz do espetáculo, que está em cartaz no teatro Cit-Ecum. "A cada novela na TV, tento sempre intercalar ao menos uma peça. Mas essa foi minha primeira experiência com um teatro alternativo, o que é muito diferente e mais rico", comenta ela. "Ao contrário de peças mais comerciais, em que você só tem que cuidar da sua personagem, aqui, a criação vai além. Somos chamados a opinar sobre tudo."

Ainda que Caixa de Areia não tenha surgido de um processo de criação colaborativa, Jô Bilac costuma escrever alguns de seus textos enquanto os ensaios se desenrolam. "Entrego o texto em capítulos, sem que eles saibam o final", diz ele, que também assume a montagem como diretor, ao lado de Sandro Pamponet.

A história de uma mulher, que se coloca diante da vida de forma distanciada, incapaz de se envolver afetivamente com quem está a seu redor, é a terceira parte de uma trilogia do jovem escritor. Na primeira, Savana Glacial (2011), ele investigava a mente de um ficcionista. Na seguinte, Popcorn (2012), as atenções recaíam sobre a obra de arte em si - um best-seller escrito por uma dona de casa em sua estreia como literata. Tema que, como se pode imaginar, convocava o espectador a olhar para questões correlatas, como plágio, direito autoral e adaptações. Caixa de Areia encerra o ciclo ao escrutinar quem está do outro lado da trincheira da produção artística: uma crítica.

A crítica não é apenas a profissão da protagonista Ana (interpretada pelas atrizes Cris Larin e Julia Marini), mas um estado de espírito que contamina suas relações e seus comportamentos. Um ímpeto irrefreável que a leva a analisar, questionar e tomar conclusões sobre tudo e sobre todos. "Estou tratando de ser crítico em todos os aspectos. Ela é excessivamente racional. Distancia-se de tudo e não consegue entrar nas situações que vivencia. É como se fosse uma espectadora da própria vida", aponta o dramaturgo.

Taís Araújo é Marisa, mãe com a qual a personagem principal sempre manteve uma relação tumultuada. "Minha personagem vive na superficialidade. E Ana não se reconhece nessa mãe", pontua Taís. O distanciamento da protagonista, aliás, surge justamente desse conflito familiar. "Ela começa a criticar a própria mãe", considera Bilac. "Mas, quando você não se identifica com a sua matriz, com o lugar de onde veio, qual passa a ser a sua referência?"

Com o marido Felipe (Jaderson Fialho), a tônica não é diferente. Jornalista esportivo, ele se torna um crítico teatral aproveitando muito do que absorve das opiniões de Ana. Ela, por sua vez, nutre por ele imenso desprezo, queixando-se constantemente de suas atitudes, hábitos e ideias. "Sartre falava que 'o inferno são os outros'. Em Caixa de Areia é o contrário. Fica nítido que cada um pode encontrar o inferno em si mesmo", observa o dramaturgo.

Para romper tal círculo vicioso, a trama propõe um enfrentamento entre essa mulher e as três perdas que marcaram sua trajetória. "Estranhamente, a morte para ela pode ser uma transformação, a única conexão verdadeira que é capaz de estabelecer com a vida", diz Bilac.

Assim como fez em títulos anteriores, o autor se utiliza de vários tempos narrativos. Após o suicídio de uma inquilina, Ana retorna ao apartamento que herdou e onde morou na infância. Esse é o estalo para que presente e passado se embaralhem e ela possa reviver, com olhos adultos, as experiências pelas quais passou na infância.

Outro mecanismo constante na dramaturgia de Jô Bilac é a sobreposição entre realidade e ficção, apagando-se os limites entre as duas. O autor nunca escamoteou a imensa influência de Nelson Rodrigues em suas criações: o humor ácido, a construção dos diálogos, os conflitos das personagens. Nesse contexto, o mergulho no inconsciente proposto em Caixa de Areia pode ser encarado como mais uma evidência de tal filiação.

Essa é a segunda incursão de Bilac pela direção. Experiência que, segundo ele, tem lhe permitido uma simbiose maior entre o que está no texto e o que será apresentado em cena. Na atual montagem, ele vasculha o inconsciente valendo-se de referências visuais de dois cineastas: David Lynch e Ingmar Bergman.

Em 2014, outros dois espetáculos do dramaturgo

Além de Caixa de Areia, outras duas criações de Jô Bilac já tem data de estreia em São Paulo. Em janeiro, o Sesc deve receber Conselho de Classe, peça do autor encenada pela afamada Cia. dos Atores, do Rio. Depois de anunciado o fim do grupo, que enfrentou a saída de Enrique Diaz e Drica Moraes, a companhia retornou a cena com essa montagem, uma reflexão sobre a falência da educação. Em abril, será a vez de Popcorn abrir temporada por aqui, ocupando o Teatro Nair Bello. Com Maria Maya e Xuxa Lopes no elenco, o espetáculo lida com a ideia de que tudo já foi inventado, relativizando os conceitos de plágio e autoria.

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