J.M. Coetzee põe a África do Sul no espelho

Ganhar o prêmio Nobel de Literatura não deverá alterar a rotina de J.M. Coetzee, o sul-africano autor de doze romances, um deles a sair em breve e uma enorme série de ensaios a quem a Academia Sueca conferiu hoje o prêmio máximo que um escritor pode receber. Avesso à exposição, quando fala à imprensa Coetzee prefere fazê-lo por e-mail. A reclusão do autor chegou a causar confusão sobre seu nome: como sempre assina J.M. Coetzee, não se sabia ao certo que o M é de Maxwell, e chegaram a apelidá-lo de John Mistery Coetzee.Em um comunicado distribuído pela Universidade de Chicago, da qual é hoje professor visitante, o escritor limitou-se a dizer que o prêmio é uma surpresa - embora seu nome tenha constado das listas de prováveis vencedores nos últimos anos. Afirmou também que mal sabia que o anúncio do Nobel se aproximava. E só. Segundo a instituição, o autor não vai dar entrevistas.O quieto e solitário Coetzee recebeu a agência Associated Press para uma entrevista há 13 anos, e já nesta época afirmava as questões que levava para as páginas e que, agora, lhe rendem o Nobel. Entre elas, uma preocupação permanente com a história da África do Sul e a posição da sociedade do país em relação ao seu passado. Em termos bem concretos, a memória do apartheid, o racismo oficial que perdurou na África do Sul até quase o fim do século 20, é recorrente na literatura de Coetzee."Nossa história é de um jeito que, de repente, pessoas comuns são confrontadas com grandes decisões, e de uma forma que pessoas comuns em geral não são", disse o escritor em 1990 sentado na escada de um saguão de hotel em Nova York. "Acho que a África do Sul nos últimos 40 anos tem sido um lugar em que o povo teve que lidar com dívidas morais realmente imensas".Quem conhece um pouco da história da África do Sul (a prisão de Nelson Mandela por 27 anos é apenas um dentre episódios dantescos) tem idéia do que são as dívidas morais a que Coetzee se refere. Um destes episódios levou o escritor a deixar o país por dez anos: o massacre de 70 pessoas em uma manifestação, pela polícia, em 1960. Foi para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos, onde a Universidade do Texas lhe deu o PhD em programação de computadores. Sua atividade acadêmica não terminou com a dedicação à literatura.Saiba mais sobre o Nobel de Literatura na internet brasileiraO círculo vicioso da violência na África do Sul Literatura do medo.Desonra como herança

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