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Jingle Hells

Voltar para Nova York em dezembro é tomar um choque de Natal. Nenhuma cidade norte-americana se enfeita e teatraliza as festas de fim de ano como esta.

Lúcia Guimarães / NOVA YORK , O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2016 | 03h00

Não é possível comprar um café sem ouvir a trilha sonora natalina que se estende de Bing Crosby a adolescentes que migram para o gênero em arranjos eletrônicos medonhos. Multidões enfrentam o frio em quarteirões de filas para admirar a árvore de Natal do Rockefeller Center e o tradicional balé Quebra-Nozes, na versão de Georges Balanchine, está especialmente encantador, no Lincoln Center.

Mas, a não ser em 2001, não me lembro de um fim de ano tão lúgubre. Ataques contra minorias continuam a acontecer, em números mais altos do que em anos passados. Nikita Whitlock, mulato de pele clara e conhecido jogador do New York Giants, chegou em casa em Nova Jersey com a família e um bebê recém-nascido para encontrar a porta arrombada e as paredes pichadas com suásticas, frases racistas e o nome do presidente eleito.

Uma policial muçulmana dirigia com a cabeça coberta quando deixou seu filho adolescente numa rua do Brooklyn para em seguida ver o filho empurrado por um homem que gritava: “Estado Islâmico! Vou cortar sua garganta, volte para o seu país”. O país da policial Aml Elsokary é este e ela foi celebrada por arriscar a própria vida resgatando uma criança e sua mãe de um apartamento em chamas, há dois anos.

Há 800 muçulmanos no departamento de polícia de Nova York e sua rotina está mais árdua. Quem entende do riscado é Asma Khalid, excelente repórter política da rede de rádio NPR.

Depois de um ano e meio cobrindo a campanha e sofrendo humilhações, a jornalista norte-americana, que cresceu em Indiana com católicos, protestantes e judeus, e também cobre a cabeça, desabafou: foi ingênua por esperar que receberia tratamento civilizado em certos rincões do país. Sua família assustada perguntava se ela era masoquista, enfrentando xingamentos de jihadista, prostituta e terrorista pelo crime de abordar eleitores com um gravador.

Músicos que me enviavam e-mails coletivos anunciando shows agora escrevem para sugerir encontros, pedir que os amigos não esmoreçam em suas convicções e que usem a imaginação para enfrentar os próximos quatro ou oito anos. 

Imaginação. O resultado de novembro foi, em grande parte, uma falha da imaginação coletiva. A jornalista russa Masha Gessen alerta para esta cegueira desde julho. Não era preciso Vladimir Putin tentar manipular a eleição, ela escreveu, meses antes do vazamento da conclusão ainda pouco conhecida da CIA, de que, de fato, o processo eleitoral sofreu interferência de Moscou.

E, é bom lembrar, não conhecemos o resultado prático dessa interferência nas urnas. Faltou imaginação sobre a possibilidade de o país se infligir uma guinada autoritária.

Gessen era editora-chefe de uma popular revista de ciência em Moscou. Em 2012, a revista atraiu atenção de Vladimir Putin, que se vangloria de ser defensor da natureza. O governo tomou conta da publicação e deu ordem a Gessen de produzir uma cobertura. Ela se recusou e foi demitida. Putin mandou chamá-la e ofereceu o emprego de volta.

Ela adorava o trabalho, mas recusou, escolada na própria história familiar: Um bisavô que administrava um gueto judeu para os nazistas, convicto de que protegia os seus, e uma avó que era censora de Stalin, omitindo para o mundo a realidade de terror e fome que correspondentes estrangeiros tentavam cobrir.

Ao lembrar sua história num artigo na New York Review of Books, Gessen examinou, cética, o realismo que tomou conta até de moderados em política e na mídia. E conclui, com sensatez, que o momento pede menos realismo e mais clareza moral.

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