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Leandro Karnal
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Jesus seria de Capricórnio?

Tenho uma certeza, clara, científica e confortante: Ele não era desse signo

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo.

25 de dezembro de 2019 | 07h00

Jesus não nasceu em 25 de dezembro. A data foi decidida muito tempo depois e tinha um pouco de aleatório e uma vontade de incorporar uma festa pagã (Sol Invicto) ao calendário cristão. Jesus não era do signo de Capricórnio.

Quando Constantino legalizou (313) o novo culto cristão, temos dúvidas se ele instituía um monoteísmo claro ou se aceitava partilhar a divindade com o carpinteiro galileu. As inscrições do arco triunfal do filho de Santa Helena, em Roma, possuem certa ambiguidade, como se o imperador divinizado declarasse a proteção de outro ser não humano para amparar seu trono. 

Porém, quando Jesus nasceu de fato? Sabemos que fazia frio na data, porém o nascimento de Messias era uma festa irrelevante em todo o período inicial do cristianismo. Celebrava-se a Páscoa com fervor, não o Natal. As pinturas das catacumbas dos anos iniciais do novo culto mostram o bom pastor, Jesus parecido com o deus Apolo, cruzes, ou o cordeiro; jamais a manjedoura ou o menino recém-nascido. Aliás, comemorar aniversário foi considerado ato quase sacrílego no início do cristianismo, atitude de bárbaros e pagãos.

Mesmo em períodos posteriores, celebrava-se mais o dia do santo patrono da pessoa do que a data de nascimento do fiel.

A figura do Deus-menino, portanto da possível celebração de seu nascimento, é muito posterior. Nas Virgens românicas, Ele é mais um adulto pequeno do que uma criança. Nas imagens góticas, aumenta o olhar de doçura de Maria e o filho vai se tornando mais uma criança. No Renascimento, desponta a plena infância do Salvador. Os presépios (atribuídos a São Francisco na Úmbria do século 13) aumentam a idade do aniversariante. Quase nunca parece um recém-nascido, todavia uma criança de 2 anos ou mais, com ternos braços abertos. O melhor menino Jesus, claro, é o de Fernando Pessoa: Poema do Menino Jesus. Vale a pena ler o texto no Natal. É um Jesus encantador. Há os estranhos, também. Perdoem-me os devotos: acho muito assustadora a figura do “Menino Jesus de Praga”. Há um particularmente sinistro na Basílica do Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Disseram-me que a figura foi engastada ali, por promessa de um abade, sobre uma bomba. Nunca conferi o dado. 

Jesus não é de Capricórnio, sabemos. Era imaginativo e humanista. Como ele nasceu em uma noite gelada, podemos pensar em algo entre outubro e março naquela região. Ele poderia ser aquariano, mas isso seria narcisismo meu querendo o Salvador do mesmo signo que o deste cronista. Quando ele vira mesas no templo de chicote na mão, parece um sagitariano possuído pelo fogo. Sua densidade mística e sensibilidade indicaram um pisciano. Ele chorou algumas vezes nos Evangelhos (morte de Lázaro, sobre Jerusalém, etc.). Isso dá mais argumento para Peixes. Hipótese final: o Messias teria nascido na última semana de Libra. Acho que não. Seus gestos são pouco conciliadores e a estética não era dominante na sua vida. 

Meu voto iria para um Jesus aquariano ou pisciano, com rompantes sagitarianos, talvez um ascendente nessa casa. A pista da temperatura da data afasta hipóteses como Touro, Leão, Câncer, Virgem. Como há primaveras que tardam, cintila uma vaga hipótese de Áries. Da mesma forma, invernos precoces ou outonos rigorosos poderiam indicar Escorpião, um Salvador feito de água densa. 

Quem poderia responder bem à questão foram os magos do Oriente que, afinal, perscrutavam os céus e as estrelas buscando sinais indicativos para a ação a partir dos signos. Na prática, como toda a antiguidade, combinavam astronomia e astrologia. Seguiram uma estrela (um cometa?) e traçaram uma certeza que justificava três presentes simbólicos: ouro, incenso e mirra. Os sábios (futuros “reis magos”) também eram sensíveis a sonhos premonitórios e evitaram voltar a Herodes. Liam o mundo material pelos céus. Inauguravam uma associação entre o cristianismo e a astrologia que duraria séculos. Em igrejas antigas havia os signos do zodíaco representados. Isso não era considerado ímpio, pelo contrário. Papas tiveram astrólogos por séculos. Depois, por motivos que excedem nosso espaço, tudo mudou. 

Não, meu caro leitor e minha querida leitora, não tenho convicção alguma de que seja possível uma arte da personalidade a partir de tipos zodiacais. Todavia, considero uma conversa interessante e divertida. Amei os capítulos de Keith Thomas sobre a crença em astrologia no clássico Religião e o Declínio da Magia (Cia das Letras). 

O campo do debate é amplo. Seria Jesus de fato Deus ou um simples profeta? Seria um ser especial e iluminado pelo verdadeiro poder do Alto como querem nossos irmãos islâmicos? Seria a Segunda pessoa da Trindade, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós? Talvez um ser humano com uma ideia incrível de melhoria da vida em grupo? Um membro de algum grupo judaico específico como os essênios, verdadeiros monges antes da existência do monaquismo? O filho de José e de Maria pertenceria a uma vertente religiosa do mundo hebreu que pode ser identificada no rabino Hilel e na busca do amor e do perdão como mandamentos supremos da Torá? Seria um humano que aprendeu muita coisa na Índia durante seus anos “obscuros”, dos 12 aos 30? Seria um homem santo do mundo indiano influenciado por pressupostos budistas? Até extraterrestre já foi identidade atribuída a Jesus. Eu apenas tenho uma certeza, clara, cristalina, científica e confortante: Jesus não era de Capricórnio. Se você não gostou da crônica, eu já sei, há uma chance enorme de você ser de Capricórnio, gente de um realismo irritante e com pouco senso de humor... Boa semana e bom fim de ano para todos os leitores e leitoras, de todos os signos zodiacais. 

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