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Jesus, perspectiva e Rosário

Um dia precisou acompanhar a irmã que necessitava de cuidados médicos em São Paulo. Era a primeira vez que ficavam longe de Formiga. O tratamento prolongou-se.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2020 | 03h00

Maria do Rosário nasceu religiosa e simples. Sua vida na pequena Formiga (MG) foi a mais pacata possível. Trabalhava com prazer e aproveitava as horas de folga para rezar na Matriz de São Vicente Férrer, o dominicano que a socorria em todos os campos. Amava presépios e o Natal era sua data de quase êxtase místico. Cozinhava cantando hinos e dormia agarrada às contas que lhe davam o nome de batismo. 

Um dia precisou acompanhar a irmã que necessitava de cuidados médicos em São Paulo. Era a primeira vez que ficavam longe de Formiga. O tratamento prolongou-se. Os médicos davam nomes complicados e Rosário se apegava à imagem do santo da sua infância e ao seu hábito de mistérios e de Ave-Marias. 

O dinheiro das duas escasseou e a permanência se ampliou. Como nunca temeu trabalho, Rosário decidiu procurar sustento. Um médico disse que seria bom ter ajuda em casa. O infectologista morava em Higienópolis. A mineira viu em tudo a mão de Deus, de Nossa Senhora do Rosário e de São Vicente Férrer. Entrou no quarto do apartamento cantando, mentalmente, uma música do Padre Fabio de Melo, cidadão de Formiga, algo que a enchia de muito orgulho. Instalou-se e logo colocou a imagem do santo sobre a mesa ao lado da cama. 

A família do Dr. Isaac era muito boa e Dona Sara, a esposa do médico, logo se ligou à simpática e feliz Rosário. O salário, em São Paulo, era muito maior do que ela receberia em Formiga. Tudo era perfeito, menos uma coisa que ela ainda não sabia: a tal da perspectiva... 

Explico-me. Quando falou, ao servir o jantar, que ela era de Formiga, nenhuma pessoa da família Stein sabia onde ficava. Deu referências: Candeias, Pimenta, Pedra do Indaiá... Nada. O segundo choque de perspectiva veio da simpática Sara Stein: ao ver a imagem de São Vicente Férrer no quarto da contratada, indagou quem seria. A mineira católica ficou abismada! Era o santo amigo de papas, era um homem de cultura enorme e que a amparava em todos os momentos. Ao lado da imagem do padroeiro, estava a outra devoção: Nossa Senhora do Rosário. Dona Sara disse que aquela ela conhecia, deveria ser a imagem de Aparecida! Rosário ficou chocada. Era alguém que não conhecia imagens. Como era de excelente índole e sempre queria se adaptar, perguntou à matriarca dos Stein quais eram os santos que guiavam aquela família que parecia tão boa. Dona Sara sorriu e explicou que eles eram judeus e que, assim, não tinham imagens ou santos. Era demais para a doce cozinheira. Tentando contornar o paradoxo inexplicável de alguém no mundo não ser católico e devoto, perguntou, então, quando eles comemoravam o Natal. Dona Sara respondeu com calma que eles não celebravam o nascimento de Jesus. A informação foi além do que Rosário supunha plausível, como se tivesse descoberto outro universo. 

No dia seguinte, tendo sido informado do diálogo, o culto dr. Isaac conversou com Rosário durante o café. Lembrou a ela que os cristãos eram muitos, quase dois bilhões, porém o mundo tinha mais de 7,5 bilhões de habitantes. Assim, para o número enorme de 5,5 bilhões, havia outros caminhos que não os de Jesus como Salvador. Por exemplo, dizia o médico em tom didático, nós somos judeus e Jesus mesmo nasceu como parte de uma família de judeus de muita fé e sofreu circuncisão e cumpriu muitos dos mandamentos de Moisés. Isso, disse o médico, era... perspectiva. Era um pouco demais para ela. A fé de Maria do Rosário encontrara perspectiva. 

O Natal se aproximava. A cozinheira estava convencida de que aquele mundo era diferente mesmo: não identificou árvore na casa, enfeites, presépio ou compras. Sim, o doutor estava certo: eles não viviam o Natal. Tendo recebido a primeira quinzena de trabalho, comprou uma imagem de Jesus na manjedoura. Agarrou-se ao pequeno infante de Belém que nunca parecera tão indefeso.

Chegava o dia de sair do hospital e as irmãs estavam cheias de júbilo. Talvez passassem a Missa do Galo em Formiga. Quem assinou a alta foi o dr. Fouad. Em alegria intensa, Rosário perguntou a ele onde passaria o Natal. Ele, gentil, desconversou. Rosário sorriu, pois já sabia de tudo: “sim, o senhor deve ser judeu”. O médico anunciou que era islâmico, religião de mais de 1,5 bilhão de pessoas. Para eles, Jesus era um profeta, todavia não era Deus e nem redentor dos homens. O nome que o médico disse para Jesus era outro: “para nós, ele é Issa”. Perspectiva de novo!

As duas pegaram o ônibus no Terminal do Tietê e voltaram para Formiga. Chegaram na manhã do dia 24 de dezembro. A cidade estava toda preparada. Havia luzes ao entardecer. O presépio estava montado na Igreja conhecida. Lá, o Jesus da bolsa de Rosário voltou a crescer e a ocupar todo o espaço mental. O mundo voltara ao seu eixo e a doce protagonista sempre narrou aqueles meses em São Paulo como uma experiência muito boa, contudo, ela preferia sua cidade. Uma formiga católica em Formiga, feliz, cercada de gente que sabia quem era São Vicente Férrer. Bom Natal e boa perspectiva para todos nós. O tamanho de Jesus em cada pessoa é um milagre constante.

* LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR  DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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