‘Jesus Cristo Superstar’ aposta na luta entre a fúria e o amor

Musical dirigido por Jorge Takla foca no conturbado jogo de emoções entre Judas, Madalena e o Filho de Deus

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2014 | 03h00

Em Jesus Cristo Superstar, emocionante, estridente e sedutor musical que estreia hoje no teatro do Complexo Ohtake Cultural, fúria e amor, emoções que tanto consomem os jovens em particular, praticamente incendeiam o palco. [ 16 ]Com uma duração mais enxuta (dois atos somando 130 minutos) que o original, o espetáculo dirigido por Jorge Takla é preciso no enfoque: a última semana de vida de Jesus, dividido entre a paixão de Maria Madalena e a traição de Judas.

Sentimentos tão antagônicos servem para dividir o estilo de rock executado pelo grupo de 28 atores. Incomodado com a ascensão de Jesus, aclamado o rei dos judeus, Judas personifica a raiva, com canções mais pesadas, heavy metal, reforçadas pelo visual dark do personagem. De outro lado, a suavidade de Madalena, cujas músicas são mais próximas de baladas românticas. No centro da disputa, Jesus, vivendo um sentimento eminentemente humano – a ambiguidade –, que se reflete também nas intensidade das canções, ora leve, ora pesada.

A primeira decisão acertada na direção de Takla foi abandonar a ambientação do original, criado por Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, que estreou na Broadway em 1971. Se, naquela época, a geração hippie significava resistência às ditaduras e à brutalidade que reinava em boa parte do mundo, atualmente tornaria o espetáculo datado. Assim, a começar pelo figurino criado por Mira Haar (que aposta em coturnos e jeans misturados a batas romanas), a modernidade torna-se uma forte referência às manifestações que ainda acontecem nas ruas brasileiras, especialmente espelhando a ação dos estudantes.

Atitude, irreverência, contestação, agressividade e liberdade marcam o texto traduzido por Bianca Tadini e Luciano Andrey. O resultado é uma versão mais enxuta que a original, pouco ultrapassando as duas horas, o que permite concentrar a trama na relação do trio principal.

Isso obrigou uma seleção das canções e uma aposta de estilo, feita pela maestrina Vânia Pajares, responsável pela direção musical. O resultado são [ 4 ]arranjos muitas vezes formados por várias camadas, com elementos clássicos do rock, alternados com uma dinâmica mudança, por vezes abrupta, dos tempos.

Com o tempo mais enxuto, todos elementos são devidamente utilizados para facilitar a narrativa. É o caso também da coreografia de Anselmo Zolla – profissional com sólida carreira no balé, ele partiu do princípio de que a dança precisa ser completamente compreensível, com cada movimento, cada virada de corpo significando algo para a plateia. O resultado é uma coreografia por vezes minimalista, mas essencialmente comunicativa.

Com tantos apoios artísticos, cresce a responsabilidade do elenco, formado por profissionais mistos, ou seja, alguns com mais, outro com menos experiência em musicais. O resultado, no entanto, é surpreendente e coeso. Em sua estreia no gênero, Negra Li traz a emoção contida de Madalena, aplicando sua experiência de palco a favor do personagem. Alírio Netto tem uma marcante interpretação como Judas, utilizando com grande eficiência sua experiência como cantor de rock, tornando os agudos prolongados em uma continuação da crítica do personagem. Igor Rickli, além da surpreendente semelhança com a imagem que se tem do Cristo, modula a emoção, humanizando o Filho de Deus. Destaque ainda para Fred Silveira (Pilatos), Wellington Oliveira (Herodes), Julio Mancini (Annas) e Beto Sargentelli (Simão), impecáveis.

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