AP
AP

Jerry Robinson, desenhista do Batman, morre aos 89 anos

Ilustrador é considerado o criador do mais memorável vilão do super-herói, o Coringa

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2011 | 16h55

Morreu na quarta-feira o criador do Coringa, o cartunista Jerry Robinson. Robinson morreu durante o sono em um hospital em Nova York, onde vivia. Ele nascera em Trenton, Nova Jersey. Tinha 89 anos.

Ele também foi co-autor de Robin, o Menino-Prodígio, e integrou o time que criou as primeiras aventuras do Batman. Era, ele mesmo, um "boy wonder", um menino-prodígio, descoberto aos 17 anos pelo lendário Bob Kane.

Conta a lenda que Bob Kane o encontrou trabalhando como vendedor de sorvetes num resort em Catskill Montains, um emprego de verão. O veterano cartunista, criador do Batman, não teve como deixar de reparar na jaqueta branca que o garoto vestia, e que era toda decorada com suas próprias ilustrações.

A última vez que esteve no Brasil foi no ano 2000, para uma exposição. Ele veio visitar a redação do Estado, trazido por Álvaro de Moya.

Dias depois, Robinson teve um princípio de infarto em São Paulo. Com arritmia cardíaca, foi parar no Hospital das Clínicas, onde lhe arrumaram uma enfermeira bonita que falava inglês. "O Brasil. Não existe lugar melhor para sofrer um infarto", disse o sempre bem-humorado cartunista ao receber alta.

Robin, ele contou, nasceu de uma associação de imagem com o personagem Robin Hood e também da necessidade de Batman deixar de ser um soturno e solitário personagem para ter um "sidekick" - um parceiro.

Nos anos 50, um psiquiatra, Frederic Wertham, afirmou que a amizade entre os dois paladinos da Justiça, Batman e Robin, tinha algo de suspeito. Provavelmente, eram homossexuais, dizia Wertham. Robinson apenas se divertia com a insinuação. "Eles são só amigos", diz. "Então dois homens não podem ser amigos?"

Nos anos 40, além dos já citados personagens, Jerry Robinson despejou uma avalanche de vilões esquisitos no caminho do Batman: o Pingüim, o psicanalítico Duas Faces (alter ego de um promotor de Justiça), Edward E. Nigma (o Charada, encarnado no cinema por Jim Carrey), o Espantalho, o Camaleão, o Mosqueteiro, Tweedledee e dezenas de outros.

Era também ativo na defesa dos direitos dos cartunistas. Presidente da Cartoonists and Writer's Syndicate (CWS), ele batalhou durante anos contra as injustiças do setor. "Não tinha posições imperialistas, abrigava cartunistas do mundo todo e recebia material de todo lugar", conta o expert (e amigo) Álvaro de Moya. A mais conhecida briga foi quando representou Joe Shuster e Jerry Siegel, os criadores do Super-Homem. Durante quase toda a vida, a dupla brigou para receber uma fatia do bolo de milhões de dólares degustado pelos já citados burocratas engravatados. Robinson conseguiu que ganhassem pelo menos uma pensão satisfatória até o fim de suas vidas.

Abaixo, trecho de entrevista que o artista concedeu ao Estado no no ano 2000.

Estado - Quais eram suas principais influências quando começou a desenhar o Batman?

Robinson - Bem, eu comecei muito jovem, com 17 anos. Estava no colégio e precisava de dinheiro para continuar meus estudos. Queria ser jornalista. Eu não sabia bem o que fazia.

Estado - É verdade a história de que Robin foi criado sob inspiração de Robin Hood?

Robinson - A idéia do garoto foi de Bill Finger, outro artista daquela época, o melhor escritor dos comics. O nome e as roupas foram inspirados em Robin Hood. Foi sugestão minha porque eu era, desde a infância, um grande admirador de Robin Hood. E também uma forma de homenagear a mim mesmo, já que eu sou Robinson.

Estado - E o Coringa?

Robinson - O Coringa veio algum tempo depois. Eu tinha ideia de criar um novo tipo de vilão para os gibis que trouxesse também algum senso de humor e representasse um confronto constante para o Batman. Era uma época em que eu lia no colégio histórias sobre vilões memoráveis na Bíblia, na mitologia, na literatura. E havia Sherlock Holmes e Moriarty.

Estado - Hoje em dia, os filmes sobre o Batman exploram mais as contradições de sua personalidade. Batman é um personagem convulsivo, esquizofrênico. E há também muita dubiedade sexual entre Batman, Robin e os vilões. Como o sr. vê isso?

Robinson - As histórias de hoje são bem diferentes de quando nós criamos esses personagens. Nós tentamos dar uma pequena conotação sensual à Mulher-Gato, por exemplo, fazer dela uma mulher atraente. Mas não uma vamp, como é hoje em dia. Com o passar dos tempos, novos desenhistas e escritores foram inserindo novas características nos personagens, mais psicologismos, mais pontos fracos. Foram sendo mais humanizados. De certa forma, para contar histórias isso pode ser bom e pode não ser bom, porque heróis são heróis. Isso pode ser mais adequado aos dias de hoje, mas não era apropriado para aquele começo.

Tudo o que sabemos sobre:
Jerry RobinsonBatmanQuadrinhos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.